Uma das características do ser humano é o seu desejo pelo sucesso, especialmente em contextos muito competitivos, como são as equipas de futebol. O sucesso no alto rendimento traduz-se em vencer, se possível, o maior número de vezes. O que leva uma equipa a vencer e atingir o sucesso é algo que motiva todos os agentes desportivos ligados ao fenómeno, especialmente se essas vitórias puderem ser regulares e até quem sabe atingir algo melhor que o sucesso pontual, que são as dinastias de vitórias.

Os treinadores costumam dizer que chegar ao topo é muito complicado, mas manter-nos lá é ainda mas difícil. Não só porque não existem receitas concretas para o sucesso, como todos os campeonatos têm contextos distintos e quem vence permite sempre que a concorrência possa adaptar as suas estratégias de modo mais célere e com menos experiências.

A ciência denomina de equipas de elevado desempenho as que vencem constantemente campeonatos, dado que diferenciam das que ‘apenas’ vencem, pela questão temporal. Esta época desportiva são poucos os campeões que vão renovando a liderança dos seus países. Das ligas principais, e por agora, somente o Bayern repete a liderança e possivelmente o título.

De modo muito objetivo, assistimos a dois fenómenos esta época: o (re)aparecimento de novas equipas com mais recursos e melhores estratégias; e algumas vitórias da época passada não foram de equipas de dinastia, mas de uma espécie de corredores por fora. Por outro lado, a dinastia provoca uma bipolaridade de análise interna: vencer é a melhor motivação que existe para continuar a vencer; mas mesmo vencendo é necessário internamente que a estrutura organizacional se sinta sempre ameaçada. Um pouco como faz o tenista Nadal: tem a convicção de que pode vencer qualquer adversário, mas também a desconfiança que pode ser vencido por qualquer um, de modo a manter sempre os níveis de alerta.

O orgulho de pertença e o desejo constante de melhoria são duas das características que aparecem ligadas à dinastia. Um misto entre manter um núcleo de jogadores com qualidade que sintam a camisola, mas equilibrados com um misto de jogadores que querem sentir a vitória pela primeira vez. Um misto de jogadores que compreendam a cultura do clube e outros que naturalmente desejam ter títulos dê por onde der. Este equilíbrio, associado a um contexto competitivo exigente, acresce da necessidade de ter de ‘correr’ o dobro, dado que não é suficiente fazer as coisas bem, têm de se diferenciar sempre e de modo superior.

Quase a entrar nos descontos do artigo, o que se pede a Rui Vitória no Benfica é que faça a mesma omelete com diferentes ovos. Em que claramente, sem querer distribuir percentagens de responsabilidades nas vitórias e nas derrotas, nem tudo depende pela mesma margem da estrutura, da liderança e do treinador. A discussão sobre se os ovos são apenas diferentes ou piores, é outro tópico. O contexto de hoje é mais exigente, porque vencer 3 campeonatos é mais complexo do que 2 e consecutivamente.

A concorrência tem o papel facilitado de perceber com quem faz teoricamente melhor. Nem sempre ficam no plantel os jogadores que eram os que se pretendiam entre o ideal e o possível, entre os que sentem a camisola e querem continuar a vencer ou aqueles para quem o vencer deixa de cativar tanto como na primeira vez. Usando a expressão de Rui Vitória, a dinastia não é uma coisa fácil e por isso é que não é para todos ao nível dos vários campeonatos europeus.

Por último, o abismo entre a soberba, desleixo, rigor e ambição é como a vida dos treinadores. Se não nos colocamos sempre em alerta, também as equipas passam de bestas a bestiais e vice-versa. A dinastia é atraente para a história, para os filmes, mas pouco atraente para a economia. E o enviesamento entre o que se deseja e o que o contexto natural das coisas deveria ter é pouco usual na nossa sociedade. Por isso, quem quer vencer mais vezes do que os outros sabe que tem de trabalhar mais e melhor do que aquele que está próximo.

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