Não se sabe ao certo que idade tem esta mulher criada numa pequena aldeia rural do Punjab paquistanês. Ela julga que terá nascido em 1971, mas admite-se que de facto tenha mais de 50 anos. Casou-se com um operário da construção nos arredores da cidade de Lahore. Ele já tinha três filhos, o casal teve mais dois. Na aldeia de Asia há pequenos e muito perseguidos núcleos católicos, formados em torno de missionários. Asia, conhecida como Asia Bibi, seguiu a influência da mãe e, para ela, o catolicismo tornou-se uma fé inabalável. Apesar da grande pressão para se converter ao islamismo hegemónico na região.

A fé católica valeu a Asia uma vida de perseguições. Por exemplo, numa aldeia onde não há água canalizada, quiseram vedar-lhe o acesso às fontes onde verte a água que corre das entranhas da serra. As tribos muçulmanas da aldeia invocaram que, sendo católica, ao tocar na fonte e ao beber aquela água, Asia estava a retirar-lhes a pureza.

Asia não cedeu. Precisava de beber água e bebeu. Foi em 2008.  Na primeira vez, quiseram força-la à conversão ao islão, e ela, apesar das pressões humilhantes, continuou a não ceder. Ao persistir na ida à fonte quando voltava do trabalho no campo, Asia foi espancada e logo a seguir presa. O tribunal religioso local acusou-a de blasfémia.

Blasfémia, definida como palavras ou gestos insultuosos sobre Deus ou a religião, continua a ser um crime punido com pena de morte no Paquistão e em vários outros lugares e países. A Arábia Saudita e o Irão continuam a ser tristemente campeões de execuções pelo crime de “invocar o nome de Deus em vão”.  Mas a muito católica República da Irlanda só em outubro passado, através de referendo, retirou da constituição a medieval ofensa por blasfémia. Nos EUA ainda há seis estados onde a blasfémia continua inscrita na lei.

No Paquistão, a condenação da católica Asia Bibi por blasfémia – e o crime foi o de ter bebido água da fonte num lugar onde as fontes são exclusivas para muçulmanos – significou nove anos de calvário no corredor da morte: antes ainda de ser condenada, foi torturada, depois, sempre na prisão, entrou num ciclo de esperas entre condenações à morte e recursos apresentados por organizações de Direitos Humanos. O caso de Asia Bibi no Paquistão tornou-se um assunto com repercussão internacional, com exemplos de coragem, para além do de Asia Bibi.

Em janeiro de 2011, o governador do Punjab, Salman Taseer, tomou em mãos o caso de Asia Bibi, requereu que fosse absolvida e libertada, ao mesmo tempo que propôs alterações à lei paquistanesa de blasfémia. Foi morto por um fanático religioso em funções de guarda-costas.

Dois meses depois, Shahbaz Bhatti, ministro federal para as minorias religiosas, o único católico no governo paquistanês, foi morto em Islamabad. O automóvel em que seguia foi atacado por rajadas de várias metralhadoras. O grupo assassino deixou panfletos a assinar o crime: “al-Qaeda talibã do Punjab”. Os panfletos tinham a fotografia do ministro abatido e a legenda “infiel”.

A vida de Asia Bibi na prisão continuou a ser um inferno na terra, promovido pelos que proclamam a sua religião imune a qualquer crítica ou quebra de rituais. Mas, dentro do Paquistão e com suporte internacional, cresceu o movimento de ativistas contra a condenação de Asia Bibi. Em 31 de outubro passado, num acórdão com 56 páginas, em que abundavam citações do Profeta Maomé e também de Shakespeare, um coletivo de juízes do Supremo Tribunal paquistanês sentenciou reverter a condenação à morte e  absolver Asia Bibi e mandá-la em liberdade.

Mas o caso não ficou encerrado. No mesmo dia em que foi conhecida a decisão do Supremo Tribunal multiplicaram-se manifestações hostis pelo Paquistão. Grupos de fanáticos chegaram a apelar “à execução dos juízes antes do anoitecer”. Até os militares responsáveis pela segurança dos juízes e da cadeia onde Asia Bibi continuava detida ficaram na linha de mira.

O primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, tentou usar a popularidade conseguida como campeão no críquete para, num discurso à nação, apelar à concórdia e ao respeito humano. Não foi ouvido pelos fanáticos religiosos que impuseram recurso da decisão do Supremo Tribunal.

Na semana passada, com data de 29 de janeiro, foi anunciada a decisão final: Asia Bibi está absolvida, sai em liberdade. Foi avaliado que, por motivo de segurança, deveria encontrar refúgio no estrangeiro. O Canadá colocou-se à cabeça das ofertas de acolhimento para ela e para toda a família.

Todos sabem que a ameaça de assassinato permanece para sempre. Mas, neste caso, a tolerância acabou por impor-se aos que praticam em nome de um deus do ódio a maldade bárbara.

O caso de Asia Bibi lembra-nos que ainda há pelo mundo leis de blasfémia a condenar o profano e a alimentar muitas perseguições cruéis.

VALE VER:

Iñaki Gabilondo, no El País, coloca uma questão como advertência: a Venezuela, com cenário de guerra fria, pode precipitar uma guerra quente com efeito inimaginável. Simon Jenkins, no The Guardian, vê Maduro a desejar uma intervenção internacional, porque levantaria a repulsa pela agressão estrangeira.

O choque entre Donald Trump e os líderes das instituições de segurança, nomeados por ele, resumido assim pelo The New York Times.

O último barómetro político está a pôr sob tensão a direita espanhola: os extremistas Vox roubam eleitores ao PP que caiu para o quarto lugar.

Uma primeira página escolhida nesta época de celebração chinesa do Ano Novo.

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