Da mesma forma que Deus poupou Noé do dilúvio, obrigando-o a construir uma arca na qual salvaria exemplares dos animais da Terra, os habitantes da capital deverão poupar Fernando Medina da derrota eleitoral, já que o edil reabilitou umas casas que serviram de refúgio a exemplares de jovens de Lisboa. Exemplares, sim, um ou outro casal representativo, sendo que os restantes ficaram debaixo de água, com cada vez menos esperança de encontrar sequer um T0 no problemático bairro do Monte Ararate. Mas, mais claro do que águas pluviais ordenadas por divindades é o facto de a Câmara ter falhado redondamente quanto à promessa das 6 mil casas de renda acessível previstas para este mandato. Como canta o Samuel Úria, fica aquém.

A campanha para as autárquicas tem uma carga ideológica inferior à de umas legislativas. Habitualmente, os candidatos concordam que é preciso mais "mobilidade", não descansarão enquanto não cumprirem o objetivo de "devolver a cidade às pessoas" e costuma haver um consenso cartográfico, já que todos querem "colocar (inserir localidade) no mapa". Esta língua franca das autárquicas permite, por exemplo, que Carlos Moedas — ex-membro do governo que queria privatizar o transporte público — assevere que vai oferecer o passe aos mais jovens. Na verdade, apesar de ter a aparência de uma medida despesista, é até uma proposta bem poupadinha. O seu financiamento sairia barato, uma vez que quase nenhum jovem vive em Lisboa. Os que efetivamente habitam a capital, provavelmente já andam à pendura para terem como pagar a renda no início do mês.

Por um lado, o facto das autárquicas acontecerem uma semana após o fim do verão e na sequência da silly season beneficia quem não quer que lhe perguntem como pensa resolver os problemas estruturais das cidades, como é o caso da habitação jovem. Por outro lado, as próximas semanas coincidirão com o início do ano letivo, o regresso ao trabalho, a procura de quartos para estudantes, o retorno dos trabalhadores deslocados que são obrigados a mudar frequentemente de casa arrendada. Estou certo que os jovens exigirão, nas próximas semanas, que os candidatos apresentem soluções mais do que paliativas para a habitação, no meio da frustração das pesquisas no Idealista — um nome certeiro para o site imobiliário, dada a natureza lírica da procura de um teto em Lisboa.

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