Para quem, como eu, tem medo de andar de avião, só há uma coisa que pode acalmar-me durante o voo e distrair-me do medo constante de estar no céu a bordo de um caixão com asas. Drogas legais? Não. Cafuné de uma hospedeira? Pode ser, mas também não. Estou a falar do que para muitos é um flagelo: um bebé a chorar ininterruptamente durante a viagem de avião. O que para a maioria é um motivo de nervos e sinónimo de má experiência aeronáutica, para mim é o que faz com que me abstraia da minha fobia irracional de voar.

Estou em Londres, viajei ontem e, mal o avião descola, começa um puto a chorar. Chorar a bem chorar, aquela guinchadeira de diabo da Tasmânia com dor de dentes. Toda a gente olha de lado para os pobres coitados dos pais que faziam os possíveis para acalmar o bicho, colocam os auscultadores e tentam abstrair-se do choro da criança. Para mim, é ouro sobre azul. Como medricas aéreo que sou, estou constantemente a analisar todos os ruídos e barulhos que o avião possa fazer, achando que sou engenheiro aeronáutico e que posso estar a encontrar falhas que os revisores do avião não encontraram. Fico com mini ataques de pânico sempre que oiço um barulho que nunca ouvi em viagens anteriores. Onde é que entra o choro do bebé? O choro do bebé abafa todos os ruídos parasitas que o avião possa ter e, em vez de me concentrar neles, só me concentro no facto de ter feito a escolha inteligente de não ter filhos.

Durante alguma turbulência que apanhei, o puto ia a tossir com aquela tosse de tuberculose, servindo, assim, como factor de distração, quase como white noise que me permitiu fechar os olhos e adormecer. Muita gente cobria a cara com medo dos germes lançados pela boca ranhosa do miúdo, mas eu não, apesar de hipocondríaco, os germes de bebés não me metem medo. Quem tem medo disso é gente com medos ridículos que nem pensa nas coisas e deixam as fobias sobreporem-se à razão.

Melhor só quando começou a chorar outra criança, do lado oposto do avião, fazendo com que aquilo se tornasse numa espécie de competição de bebés de choro à desgarrada, a ver quem fazia mais chinfrineira. As pessoas suspiravam, olhavam de soslaio, julgando os pais que, neste momento, ponderavam recorrer a técnicas (alegadamente) utilizadas pelos McCann, enquanto eu sorria. O meu medo de andar de avião tinha desaparecido, pois se o avião caísse naquele momento, não era mau de todo. A não ser que o inferno esteja cheio de bebés a chorar porque não foram batizados.

Sugestões e dicas de vida completamente imparciais:

Para rir: Só de Passagem, dia 11 de Maio, em Braga.

Para ver: Novo especial de comédia de Anthony Jeselnik.

Para usar: Preservativo.

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