Desapareceu a convergência para a cooperação que nos ajudou a superar a primeira vaga. Já não está forte a solidariedade que suavizou o drama em março e abril. A dúvida e a controvérsia fazem bem. O insulto e a desmotivação fazem mal.

Estamos todos a ser atropelados pelo vírus que ataca o corpo físico como o corpo social: a família, o trabalho, a escola, toda a rede de amigos e de relações. A fadiga deste tempo nunca antes vivido é geral. 

Até agora, o vazio do distanciamento é a única defesa eficaz que temos contra o agente patogénico que se tornou subversor do nosso sistema de hábitos. A ânsia de nos libertarmos desta ameaça está transformada em angústia perante o cenário cada dia mais inquietante à nossa volta.

Espanha projeta o estado de alarme e as restrições até maio. França, com recolher obrigatório noturno, teve no domingo um dramático recorde de contágios: 52 mil. A Bélgica também está a fechar-se e tem 757 doentes nos cuidados intensivos dos hospitais que estão a ficar saturados. Em Itália, todas as salas de espetáculos voltaram a encerrar, os restaurantes, bares e cafés fecham às 6 da tarde, ginásios e piscinas também têm atividade suspensa, ao mesmo tempo que a maioria das aulas está a passar para o Zoom.

Portugal é, na Europa ocidental, o país mais brando nos condicionamentos pela Covid-19.

Todos os governos europeus têm tentado esticar o mais possível a corda da resistência à paralisação que estrangula ainda mais a economia ao limitar o trabalho, a produção, a circulação e, portanto, a troca de mercadorias, bens e serviços. "Não aguentamos novo confinamento", tem repetido o primeiro-ministro António Costa.

É evidente que o fecho das escolas também perturba e empobrece a qualificação dos estudantes já obrigados a contenções que criam, necessariamente, desequilíbrios no percurso de crescimento dos adolescentes, a quem são retiradas as formas mais comuns de agregação social e para quem ficam mais difíceis aquelas festas que aproximam o primeiro beijo, os primeiros amores, o bom crescimento.

Não se pode voltar a fechar outra vez o país porque o custo é muito pesado. Mas precisamos de nos defender do vírus que infeta e reproduz-se cada vez mais – é facto que a cota de óbitos parece mais baixa, mas as hospitalizações disparam e, agora, não são apenas os mais velhos com fragilidades, é também muita gente na casa dos 20, 30 e 40 anos de idade.

Com o contágio a avançar e o vírus a conquistar posições há que ousar as decisões difíceis que os países na vizinhança estão a tomar para evitar esgotar recursos de combate à patologia e que as mortes disparem.

Esses países estão a adotar a estratégia gradual de restrições progressivas com efeito mais atenuado que possível sobre a economia do país, portanto a das pessoas. Os resultados não estão a ser animadores porque persistem muitas brechas por onde o vírus progride.

Um sábio de Saúde Pública no Reino Unido, Graham Medley, professor da School of Hygiene and Tropical Medicine de Oxford, já mostrou o resultado de estudos que mostram a eficácia da decisão de "curto circuito": o confinamento total, por zonas, por período curto (aponta 15 dias) de modo a cortar vias para a progressão do vírus, em modo que permita tanto à sociedade como à economia recuperação rápida. É uma hipótese dura. Será eficaz?

Itália está a mostrar que a resistência ao confinamento tem nichos violentos. Viram-se episódios de guerrilha urbana em Nápoles e tensão em Turim, Milão e outras cidades. Protestam comerciantes, muita gente da restauração, dos bares, dos ginásios e centros desportivos e há quem goste de aproveitar o mal-estar para provocar distúrbios. 

É evidente que está cada vez mais difícil fazer cumprir proibições que entram em choque com as nossas convicções sobre liberdade individual. Esse individualismo fica, perante a pandemia, um egoísmo perigoso.

O que está pela frente é em todos os cenários muito difícil. Mas quanto mais tempo demorarmos a tomar medidas drásticas para tratar de esterilizar o ataque em curso do vírus, tanto mais difícil será. Sabemos que uma parte importante depende de nós (máscara e distância física sempre). Mas estamos a constatar que não basta. Tal como temos andado faz cansaço, gera angústia em muitos, e não tem recompensa.

Precisamos de medidas sensatas mas determinadas e de vontade social de cumprir a favor de todos.

A TER EM CONTA:

Guia para a última semana de campanha nos EUA.

O estilo grosseiro nos mandantes políticos alastra: o presidente turco resolveu questionar a “saúde mental” do presidente francês, pela resposta firme de Macron ao terrorismo em nome do Islão. Está aberto mais um conflito, com boicotes em países islâmicos a importações de França.

Na Bielorrússia, a oposição persiste, corajosa, no combate contra o regime de Lukashenko.

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