Assim que entrou em Anfield, Jürgen Klopp apontou a um objectivo comum: transformar os cépticos em crentes. O Liverpool vivia um jejum de títulos que parecia interminável e precisava de um líder espiritual que lhe devolvesse a alma. Era necessária uma mudança profunda e o alemão teve tempo para instalar as fundações do sucesso.

Rúben Amorim chegou a Alvalade com uma sombra de desconfiança. A curta carreira não era suficiente para transmitir uma aura de salvador, tinha um passado ligado ao Benfica e o rótulo de “mister 10 milhões” colocava a jogada de Varandas como um tudo ou nada. Junta-se a isto o enfraquecimento do plantel do Sporting, que não permitiria uma ambição maior do que a luta pela Liga dos Campeões na temporada actual. A favor do jovem técnico estava apenas o timing em que assumiu a equipa, no final da última época, que deu margem para começar a definir as bases sem a pressão do resultado imediato. Por convicção, necessidade ou ambas, apareceram jovens como Eduardo Quaresma, Nuno Mendes, Matheus Nunes e Tiago Tomás com a principal camisola verde e branca.

À partida para 20/21, o Sporting tinha um treinador que sabia como queria jogar e que recursos existiam para pôr essa ideia em prática. A abordagem ao mercado – com as necessidades identificadas – serviu para aumentar o nível do plantel e a integração dos reforços aconteceu com a maior naturalidade. Não se pense, contudo, que a qualidade individual é extraordinária e que não há posições carenciadas. Mentiria também se dissesse que era evidente que os leões iriam tirar tanto proveito das apostas que fizeram. Ainda assim, deve destacar-se o critério nos movimentos realizados. Entre jogadores em trajectória ascendente (Porro, Pedro Gonçalves ou Nuno Santos, não esquecendo a repescagem de Palhinha) e a experiência de Adán, Feddal ou João Mário, Amorim ganhou os ingredientes para construir uma equipa à sua imagem.

O exemplo paradigmático é mesmo o romance antigo com Paulinho. Podia até trazer um dissabor, mas teve um final feliz para os leões. Note-se: o Sporting não queria um avançado qualquer, por muito talento que pudesse acrescentar. Todos os negócios envolvem risco, mas uns mais do que outros. O treinador verde e branco entende que a recompensa será imediata, pelo valor do ex-Braga e pelo conhecimento adquirido (humano e a nível de sistema/modelo). Preferiu esperar para ter quem queria. Há transferências que parecem caras e saem baratas. Quem não abriu a boca de espanto com a mudança recorde de Virgil van Dijk? Poderíamos discutir se o processo de contratações está demasiado centrado numa figura. Certo é que o técnico já demonstrou ser merecedor de confiança no que toca a escolhas de mercado. Se dúvidas houvesse, fica mais uma prova da clareza das convicções de Rúben Amorim. Este é o Sporting do treinador.

Haverá muito trabalho invisível que ajuda a explicar a temporada verde e branca, mas a comunicação externa rompe com tudo o que o clube fez no passado. Ninguém é candidato por decreto. É possível gerir expectativas sem entrar num discurso de vitimização e inferioridade em relação aos rivais. Rúben Amorim tem dado lições de “realismo confiante”, contrariando a exigência que sai da boca e não encontra correspondência no relvado. Esta bolha de energia positiva serviu de protecção aos jovens da formação e absorveu os jogadores acabados de chegar, já perfeitamente identificados com o clube.

O Sporting não é uma equipa ultra dominadora, pode jogar melhor ou pior, mas tem uma auto-estima poucas vezes vista em Alvalade. Daqui sairá a “estrelinha”. Em termos tácticos, falamos de um treinador atípico no panorama europeu. Não há mudanças radicais a nível estratégico, tendo em conta a adaptação ao adversário, mas uma crença inabalável no caminho estabelecido. O Sporting não joga para anular ninguém. Entra em campo para tentar impor-se, sem que isso signifique desprezo por quem está do outro lado. Numa carreira que acaba de começar, com muito mais sucesso do que outra coisa, é lógico que o técnico leonino se mantenha fiel ao que o levou lá acima. Daqui para a frente, haverá momentos em que as dúvidas chegarão e em que as convicções ficarão na corda bamba. Até agora, a força das crenças foi suficiente para convencer os mais cépticos. Amorim tem um plano e pode sair muito melhor do que o idealizou.

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