A líder do Bloco de Esquerda é mesmo a principal novidade deste momento político do país. Tinha sido na campanha eleitoral, foi na noite das eleições e, passado quase um mês das legislativas, continua a ser a que marca o tom. Sem medo de assumir essa responsabilidade, como se percebe da entrevista que concedeu ontem ao DN. Sim, a disponibilidade do PCP para negociar uma participação no Governo é surpreendente, e muda as regras do jogo, mas percebe-se o desconforto de Jerónimo de Sousa, a luta interior, a si e ao próprio partido, entre o desejo de deitar abaixo o governo de Pedro Passos Coelho e o receio de levar o PCP pelo mesmo caminho de outros PC’s europeus que se juntaram aos socialistas.

Catarina Martins, não, pelo contrário, quer estar, quer participar, quer impor uma agenda e está a fazê-lo. Porquê? Porque António Costa decidiu que fará tudo o que for necessário para ser primeiro-ministro e por isso precisa de fazer um acordo com o BE, condição necessária para o PCP ser obrigado a alinhar. Vale a pena reler algumas das respostas de Catarina Martins. “O compromisso político que estávamos a fazer permite aos pensionistas recuperar as suas pensões ao longo da legislatura. Se tivessem um governo de direita iam perder com cortes, se fosse governo do PS ficariam congeladas, e o que posso dizer agora é que há acordo para que as pensões vão ser todas descongeladas e as mais baixas terão mesmo um aumento real”.

Querem mais? “Depois de estarem fechados todos os pontos políticos naturalmente tem de haver um acordo formal e aí assumiremos as responsabilidades que forem necessárias para que a solução seja a mais forte possível na defesa dos compromissos políticos que estão no acordo”. E não só. “Estamos muito interessados na consolidação das contas públicas porque quando não há o país fica mais dependente de fatores externos e perde soberania”, sim, é uma afirmação de Catarina Martins, poderia ser o ‘novo’ Tsipras. As contas deste acordo de Esquerda, esse, fica prometido para mais tarde, e até nisto, na forma, já age como ministra.

Catarina Martins tem o partido nas mãos, talvez até como nunca Francisco Louçã tenha tido como líder histórico do Bloco. Recuperou-o depois da liderança bicéfala que quase acabava com ele. E o BE está mais perto de ser governo do que alguma vez esteve. Claro que, depois, lá vêm também o discurso anti-austeridade básico, como se não fosse necessário equilibrar as contas, as críticas ao Tratado Orçamental, sem perceber que é uma peça fundamental para que uma zona euro funcione, e à necessidade de reestruturação da dívida à grega, que tão bons resultados deu, como se sabe.

Se Catarina Martins chegar mesmo ao Governo, isso passa-lhe. Ou nós, portugueses, é que nos vamos passar.

Para ver

A TVI passou este fim-de-semana uma reportagem de serviço público sobre a caravana Ayalan Kurdi, uma iniciativa voluntária para levar mantimentos de todo o tipo aos refugiados que estavam a chegar à Europa dita civilizada e que tem tido, tantas vezes, uma resposta pouco melhor do que selvagem. Fica a capacidade de mobilização de tantos portugueses, particulares e empresas, que quiseram apenas ajudar. Ficará para sempre o nome de Ayalan Kurdi, o nome do menino curdo de três anos que morreu a fugir de uma guerra e numa travessia que o deveria levar à costa da Turquia. Não chegou vivo, mas a sua imagem chegou ao mundo. E ficou. E expôs as nossas vergonhas. Vejam e revejam a reportagem de Alexandra Borges e Tiago Donato, para nunca se esquecerem dos valores que deveríamos todos ter.

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