Não é todos os anos, não é automático. “Olha, e não é que estão a bater aquelas 12 badaladas apuradas e afinadas que nem um uníssono da Sinfónica de Berlim sob a batuta do Bernstein? Deixa-me cá começar a verter lágrimas que nem um aspersor do mais bonito relvado do mundo para estar à altura do momento”. Não é bem isto.

Na altura, de forma mais ou menos consciente, parece que me passa o filme todo do ano na cabeça numa questão de segundos, tal como dizem que acontece quando estamos para morrer. Nunca estive para morrer mesmo, embora diga muitas vezes “estou a morrer de fome, é agora que me fico” por ser muito exagerado. Nem sequer alguma vez estive mesmo para morrer numa passagem de ano, embora nalguns anos tenha chegado às primeiras horas de 2018 num estado em que, mesmo em Portugal, já me devia ser autorizada a eutanásia. Mas a ser assim, o estar quase a ir para aquele lado nenhum, é esse tipo de filme que me passa na cabeça. E aí penso na minha família e como foi bom mais um ano que estivemos juntos. Penso nos amigos, nos antigos que continuam comigo sempre comigo, e nos novos que arranjei e que tão bem me fizeram. Penso no que consegui fazer no trabalho e no que quero fazer ainda mais. Penso nas viagens que fiz e em tudo o que me trouxeram. Também fiz muita merda. E penso nisso. Não há um aninho que passe que eu não faça uma boa quantidade de merda em condições. É praticamente de louvar.

E neste poucos segundos, faço um balanço e percebo duas coisas. Que tive mais um ano daqueles a que rudemente se chama “um ano do caralho”, mas também que somos uma merdinha insignificante que vai morrer num instantinho. E aí choro. Sim, já vos disse que o álcool ajuda, e não é como se eu não tivesse noção destas duas coisas o resto do ano. Eu bem sei. Mas a passagem de ano tem ali uma carga emocional, bonita e intensa, que me faz muitas vezes parecer um menino que acabou de receber o presente que mais queria de todo o sempre.

E até foi isso que os meus pais me deram em 86, mesmo que disso eu não fizesse ideia.

Bom ano a todos. Que cheguem ao seu final a dizer “foi mais um ano do caralho”.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Argentina: Estou por cá, agora mesmo enquanto escrevo esta crónica. Que maravilha de país. Buenos Aires é uma cidade incrível, quente, cheia de vida. Vivia aqui, na boa.

- "A Estranha Ordem das Coisas": O novo livro de António Damásio. É um livro científico mas com uma linguagem acessível a leigos sobre neurologia como eu. Muito bom.

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