É estranha esta sensação de ser mais nítida a memória nas coisas às quais não prestámos atenção; ter no centro das recordações o que empurrámos para o canto dos olhos. A verdade é que retenho daquele dia uma imagem abundantemente partilhada no facebook, imagem à qual não me apetecia dar particular atenção, pelo que apressava o olhar preguiçoso em direcção à publicação seguinte. Teimava em não reparar naquela fotografia, nem nas descrições que a acompanhavam, porque me parecia “apenas”(e desculpem a descrição estapafúrdia) uma estátua de cera do actor Fred Savage, vestido como os personagens do “Cães Danados” do Quentin Tarantino, mas em pose disco de John Travolta na “Febre de Sábado à Noite”. Uma amálgama pop na minha cabeça que retardava a realidade bárbara: o assassinato dum embaixador russo. Por fim parei e reparei. Mevlut Mert Altintas tinha um fato justo e uma gravata delgada em vez dum colete de explosivos. A 19 de Dezembro a face do terror já não era deselegante, e sei onde é que estive nesse dia. 

Dois meses depois, a imagem que cheguei a ignorar eternizou-se nas distinções do foto-jornalismo. Foi votada como a melhor de 2016 para a World Press Photo, não sem que isso trouxesse alguma polémica no seio da própria organização. A minha intenção de re-noticiar o assassínio do embaixador Karlov naquela galeria turca é nula, nem tampouco pretendo aprofundar-me acerca do polícia tornado terrorista, nem sequer discorrer muito sobre Burhan Ozbilic – o fotógrafo da Associated Press que, estando no local por mero acaso, conseguiu ainda assim a sua fotografia mais importante de sempre e, decerto, uma das mais singulares e corajosas dos últimos tempos. Sem intenções de reavivar memórias para acontecimentos tão recentes, é a referida polémica em torno da eleição desta fotografia que me parece longe de estar esgotada.

Numa semana em que a consciência artística no jornalismo quase só atendeu à conferência de imprensa do ministro das finanças (pelo ar angustiado, digno dum pedinte na mais melancólica pintura barroca), foram poucas as reflexões sobre a distinção controversa da World Press Photo. Noticiou-se com naturalidade, mas pouco se reflectiu. O que me leva a puxar o assunto, mesmo que em breves esticões, é por acreditar que esta polémica semi-ignorada remete para uma questão que muito marcará o séc. XXI: quando é que o medo não nos vence? Quando sabemos apagar o rastro de morte ou quando orgulhosamente exibimos as marcas de sobrevivência?

Em termos de esmero e composição artística, a imagem captada por Ozbilic não é a mais notável, sobretudo se a compararmos com passadas “fotografias do ano” para a World Press Photo. Em termos de tensão, de oportunidade e de sangue frio por detrás da lente, aí poucas se lhe compararão. Na nota de imprensa que acompanhava o anúncio do vencedor, dois membros do júri - Mary F. Calvert e o luso-sul-africano João Silva - apontavam para a fotografia enquanto testemunho da realidade e símbolo dos tempos conturbados em que vivemos. A maneira como a imagem sintetiza o ódio justiceiro - ira convertida em terrorismo - e o catapulta para cenários e trajes perfeitamente ocidentalizados é, de facto, uma súmula tão cruel quanto verdadeira daquilo que hoje se vive e daquilo que sobre amanhã paira. Ozbilic tem um lente que é janela para o mundo, e fotos que são do mundo espelho: se aliarmos estas características à coragem do fotógrafo, deparamo-nos com um jackpot jornalístico.

Há demasiadas virtudes na maneira como esta foto-notícia nos chegou, e na maneira como essa foto-notícia nos mordeu, para que possamos estar contrários a um dever tão bem cumprido (mesmo que a retratar o cumprimento dum mau dever). Trata-se duma fotografia pessimista porque os tempos não estão para optimismos – é um retrato, no sentido mais amplo do termo, testemunhado por intermédio dessa nobre lengalenga que é o “dever do dever”. Justapostos, frente a frente, aquele que tira uma vida e aquele que tira a fotografia disso; dois disparares tão díspares. O sangue-frio de duas pessoas, e um embaixador ensanguentado no meio. De tão ameaçada globalmente que está a verdade, seria lá possível ignorar os testemunhos da sua crueza? Como não premiar a chaga, a chapa, de algo tão marcante?

Se numa primeira leitura esta consagração da World Press Photo é tão evidente, onde poderá estar a polémica? O presidente do júri, Stuart Franklin, votou contra a imagem vencedora e logo explicou os seus motivos num artigo que escreveu para o The Guardian. Embora ele admita o carácter impactante da fotografia, e considere Ozbilic um justo vencedor da categoria Spot News (dedicada especificamente à reportagem imediata de notícias, sobretudo ocorrências inesperadas), Franklin não se conforma com a distinção de “fotografia do ano”. Os motivos que dá prendem-se, sobretudo, com as funções extra-noticiosas da fotografia – as más que serve e as boas que coíbe.

O presidente do júri alerta para o empolar de uma imagem que, na prática, teve repercussão política muito reduzida. A grandiosidade com que se inflam actos de poucas consequências pode ser um panfleto indesejável, e um convite ao martírio para todos os extremistas que gostam de ficar bonitos nas fotografias. Não me parece que a opinião de Stuart Franklin sugira censura, muito embora ele levante a questão moral da publicação da foto (na imagem vê-se o executor com a vítima morta aos seus pés, pelo que Franklin questiona onde reside a grande diferença para as fotografias sempre censuradas das decapitações do Daesh). O que me parece que está, de facto, a ser repudiado no artigo do The Guardian são as honras inadvertidas que se dão a um crime desonroso, sem que disso se retire qualquer real proveito.

O que mais me sensibiliza nos argumentos de Franklin encontra-se nos valores de empatia e mudança que ele refere. Há atrocidades cujos registos fotográficos nos arrancam empatia – o sofrimento e a calamidade podem ser sementes de consolo e de transformação – mas, para Franklin, nada na foto vencedora suscita essa leitura empática que conduz à mudança. A verdade e a coragem são indispensáveis, mas serão mesmo o melhor dum ano quando não suscitam mudança?

Burhan Ozbilic foi um bravo fotojornalista naquela galeria de Arte em Ankara. Fotografou porque tinha de ser. Pôs a vida em perigo porque, para ele, tinha de ser. Informar, testemunhar, tinha de ser. Mas, e arriscar morrer por uma imagem que se auto-exclui de ganhar prémios? - seria enorme injustiça ou mais uma pequena medalha em tão notável coragem? Premeiem de alguma forma a fotografia tipo-passe que esse herói traz no bilhete de identidade, ninguém se oporá.

Não tenho orgulho nenhum em lembrar-me parcialmente do que aconteceu a 19 de Dezembro de 2016. Não tenho orgulho nenhum em ter deixado escapar imagens de terror pelo canto do olho. Mas afinal – dilema do século – como é que mostramos que não nos derrotaram? Quando temos a coragem de esquecer, ou quando perdemos o medo de recordar?

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

Em complemento da crónica desta semana, a óbvia ligação ao site da World Press Photo.

Um pouco por todo o país vai-se assinalando o 30º aniversário da morte de um dos grandes. Zeca Afonso será celebrado em muitos eventos, e aproveito para destacar este em Faro.

Para aqueles que estão há quase um ano a tentar decidir se o luto requer preto ou roxo.

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