O tempo é relativo (ou dois carros a passar por uma esplanada)

Pois bem, para tal preciso de uma frase banal. Ponho a mão no boião — como antigamente a assistente de concursos da TV punha a mão numa piscina de postais (ou seria o corpo todo?) para escolher o vencedor — e tiro a frase banal para a crónica da semana. E a frase é: «O tempo é relativo!»

Com uma frase assim, aparece-me logo à cabeça o pobre do Einstein. Não é bem sobre essa relatividade que quero falar e, por isso, tenho de usar o parêntesis...

(Longe de mim querer explicar a Teoria da Relatividade numa simples crónica de Verão, tarefa que implicaria ter de a compreender como deve ser, o que é bem possível que não seja o meu caso. Mas imagine-me sentado numa esplanada. Ao largo, passam dois carros: um branco e outro vermelho. No carro branco vai o meu caríssimo leitor, à bela velocidade de 100 km/h. Ao seu lado, passa um carro vermelho um pouco mais depressa do que o seu carro. Pois bem, para mim, que estou sentado na esplanada, o carro vermelho passa a 120 km/h. Para si, que está no carro branco a andar a 100 km/h, o carro vermelho passa à velocidade de 20 km/h. A velocidade é relativa — nada a dizer, é intuitivo.

Ora, o que Einstein descobriu — entre muitas outras coisas — foi isto: há um “carro” que está sempre a andar à mesma velocidade, independentemente da velocidade a que nós próprio andemos. Esse “carro” é a luz: a velocidade da luz é constante, qualquer que seja o observador — para que isto aconteça, o tempo e o espaço esticam e encolhem. São, portanto, relativos. É como se o tempo no carro branco passasse mais devagar para que o carro vermelho parecesse andar a 120 km/h tanto em relação a mim, que estou parado na esplanada, como em relação a quem segue no carro branco, a 100 km/h.

Parece absurdo? Ora, é mesmo assim que o Universo funciona, pelo menos de acordo com todas as observações que fizemos até agora. O espaço e o tempo esticam e encolhem para que a luz ande sempre à mesma velocidade. Este é um aspecto fundamental do funcionamento do universo.)

O estranho comportamento do tempo nas férias

Bem, se o leitor leu o parêntesis anterior, das duas uma: ou está tão interessado como antes na Teoria da Relatividade (ou seja, pouco ou nada) ou conhece bem a teoria e está a fumegar de irritação pela maneira como expliquei a coisa. Peço desculpa de qualquer maneira: prometo que agora vou falar de coisas banais. Aliás, o que queria fazer com esta crónica era falar da interpretação corrente da tal frase «O tempo é relativo!». Falo do tempo tal como sentido por um mero ser humano de férias…

Pois, se virmos bem, quando chegamos a meio das férias, o que se segue passa muito mais depressa. Isto é válido quer as férias durem dois dias quer durem duas semanas — ou, imagino eu, dois meses. Se for passear num fim-de-semana, o sábado é um dia longo e agradável e o domingo é a antecâmara da segunda-feira. Uma semana inteirinha de férias começa a acelerar ali por volta das três da tarde de quarta-feira. Já as duas semanas dividem-se entre os primeiros sete dias de férias a sério e os segundos sete dias de preparação para o regresso.

Se estivermos a gostar das férias, a última metade demora sempre menos tempo a passar. Até me atreveria a dar o meu nome a esta lei, mas tenho a certeza que alguém já a proferiu anteriormente — só não tenho tempo para ir saber quem foi.

Um truque para abrandar as férias

A minha teoria não terá, certamente, o impacto das teorias do Einstein. Mas foi o que se me ocorreu para a crónica. (Se calhar só eu sinto este fenómeno. Se for o caso, por favor, ignore este texto. Ou melhor, ignore este texto até este ponto. O que vem a seguir é importante.)

Pois bem, o certo é que descobri o truque para evitar esta sensação de aceleração das férias ali a partir do seu meio: um livro. Ou melhor: os livros que forem necessários. Não estou a brincar! Mesmo no último dia, mesmo quando já temos as coisas no carro para voltar para a famosa rotina, se me ponho a ler, consigo esticar os minutos, viver um pouco mais, dar às horas um pouco mais de substância, mesmo vestido de calções de banho e chinelos de praia. As férias abrandam e o tempo passa à velocidade que nos apetece. Enfim, não acontece com todos os livros, mas acontece com muitos — já é alguma coisa.

Portanto, menti: quando, no início, disse que tinha de despachar esta crónica para não ir fazer nada, na verdade queria despachá-la para voltar ao livro que tenho entre mãos. E que livro é? Um livrinho sobre o tempo — A Ordem do Tempo, de Carlos Rovelli.

Se gostou do tema do parêntesis ali mais acima, gostará certamente do livro do físico italiano — ele sim explica bem o que é a relatividade de Einstein.

Se não gosta de tais assuntos, atreva-se na mesma. Afinal, as férias servem para aventuras deste tipo, ou não? Prometo que é um livro bem menos banal do que esta crónica — que, enfim, lá se esticou mais do que a conta.

Bom fim de férias! Que passe devagar, devagarinho…


Marco Neves | Escreve sobre línguas e outras viagens no blogue Certas Palavras. É autor de vários ensaios sobre a língua e ainda do romance de aventuras A Baleia que Engoliu Um Espanhol.

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