Agora não podemos viajar. Assim, neste dia, recordo uma viagem de há três anos, por alturas do 25 de Abril. No carro, íamos quatro: a Zélia, o Simão, o Matias (pela primeira vez em viagens para lá da raia) e aqui o vosso condutor. Fomos até à Galiza, porque me tinham convidado para falar da língua (a nossa?, a deles?).

Já noite bem caída, passámos a fronteira para deleite do Simão — e nosso. Fomos previdentes: enquanto eu conduzia a nossa nave pelos quilómetros que separam Lisboa de Valença, a Zélia telefonou à Via Verde para que pudéssemos usar o nosso utilíssimo sistema nas auto-estradas galegas. A senhora informou que, sim, já podíamos usar a Via Verde em Espanha, mas só nalgumas auto-estradas. Ficámos um pouco baralhados, mas pensámos: bem, as auto-estradas galegas farão, certamente, parte desse grupo de estradas preparadas para receber os portugueses e o seu sistema de pagamento verde.

Quando nos apareceu a primeira «peaxe» na estrada, com o «x» que pintalga tantas palavras galegas, avançámos pela via da Telepeaje (sem «x»). A nossa maquineta apitou, mas a cancela não levantou.

Raios: e agora? Não via ninguém à minha volta. Já eram duas da manhã (estávamos num daqueles curiosos lugares do mundo onde a hora muda quando viajamos para norte).

Tive de fazer algo peculiar: andei de marcha-atrás durante uns metros e passei para a via ao lado, onde pude, com alívio, pagar a peaxe com as nossas moedas, ver levantar num aliviado gesto a cancela galega e avançar pela estrada em direcção ao hotel. 

Espero que nenhum guarda civil me tenha visto — e espero também que não me leia este artigo e o considere prova de alguma infracção. Não sei o que devia ter feito naquele momento: mas ficar ali parado à espera de alguma coisa a meio da noite é que me pareceu um disparate.

Pouco depois, apareceu-nos uma daquelas placas da estrada que informa qual o governo que paga a dita estrada. Aquela autopista tinha sido paga pelo Estado espanhol. Logo, era parte da «Red de Carreteras del Estado». O que talvez impressione algum português menos distraído é ver, por cima, a designação galega: «Rede de Estradas do Estado». Precisamente assim, sem uma única diferença que se veja em relação à nossa forma de dizer a mesmíssima coisa.

Chegados ao hotel, fiz aquilo que não posso fazer em mais nenhum lugar de Espanha: falei em português sem abrir uma única vogal! É difícil: parece que a fronteira tem um efeito qualquer na nossa garganta e leva-nos a falar um português a resvalar para o tropical. Mas, não, fui forte e falei português, tentando apenas não abusar da velocidade. A mulher que nos atendeu falou-nos em galego e tudo decorreu sem percalços, apesar da hora tardia a que chegámos (no dia seguinte, diga-se, outra funcionária falou-nos apenas em espanhol, mas não estranhou quando lhe respondi em português).

Todos nós, quando estamos com alguém em quem confiamos, aproximamos a maneira de falar — e, quando estamos numa situação de hostilidade, afastamos as nossas palavras da outra pessoa. É um fenómeno sentido em todas as línguas. Pois, no caso do galego e do português, nós podemos aproximar aquilo que falamos uns dos outros e conversar sem mudar de língua, exigindo apenas algum esforço (e cuidado com os falsos amigos). O problema é que muitos de nós, portugueses, não sabemos disto e conversamos no nosso mau espanhol com galegos que perceberiam bem o nosso bom português. Quando vejo um português a cair nestes enganos linguísticos, penso numa expressão galega: «outra vaca no milho!» Ou seja: lá está outro a cair no mesmo erro… Ainda esta semana, um alegre concorrente galego participou no "Preço Certo". Falou em galego, informando que era uma língua muito, muito próxima do português. Pois, claro, o apresentador e outros concorrentes responderam-lhe no peculiar castelhano dos portugueses... 

Bem, poucas horas depois de chegar, acordei para ir falar, logo pela manhã, à Escola Oficial de Idiomas, que foi a razão que me trouxe àquela cidade. Não chovia, o que me fez sorrir. As viagens apetecem, pois então. Mas apetecem mais ao sol — assim, nos dias anteriores à partida, fui consultando o Oráculo de Google, que me disse ir encontrar uns dias de boa chuva galega. Pois, não foi nesse primeiro dia que a chuva chegou. Falei na aula e, depois de uma boa conversa à mesa com alguns alunos de Português, voltei ao hotel. Da chuva, ainda não havia sinais. Mas havia doutras tempestades. Afinal, uma viagem e um irmão mais novo multiplicam a probabilidade de ocorrência de birras — e foi assim que tinha o Simão de pernas para o ar no quarto de hotel.

A birra passou e a chuva não veio — saímos os quatro para passear e almoçar com alguns amigos galegos num edifício que não conhecia: o Auditorio de Galicia. Um edifício magnífico, com um restaurante muito agradável.

Enquanto conversávamos e o Simão tentava derrubar-me da cadeira, descobri que a palavra para birra, em galego, é «perrencha» ou «berrinche» — mas (e aqui está um dos segredos linguísticos da nossa fronteira a norte) — há regiões da Galiza onde a palavra «birra» também é usada, pelo que me disseram.

É o que acontece em muitos casos: há várias palavras para designar a mesma coisa… Isto também é assim nas outras línguas, mas talvez seja especialmente relevante no galego, que sobreviveu sem uma norma escrita durante séculos, o que deixou em liberdade todas as palavras. Assim, temos hoje, para janela (e usando a ortografia oficial): «fiestra», «ventá» e «xanela» (quem me deu este exemplo foi o Valentim Fagim, o professor de português que me convidou para estas palestras compostelanas.)

Como vemos, estas opções podem afastar ou aproximar o galego do português. É também neste jogo de preferências que se notam as várias correntes linguísticas: o galego oficial, o galego reintegracionista e, dentro destas, várias subcorrentes que não vou esmiuçar agora.

Tudo isto ocupa muito tempo e energia aos galegos, mas a nós, cá em baixo, basta-nos esta proximidade que poucos conhecem — e ainda o gosto de sentir este material linguístico que nos é tão próximo, sobreviveu tantos séculos para lá da fronteira e é tão saboroso para os nossos ouvidos, se o soubermos escutar.

Cá fora, os meus amigos galegos fizeram-nos notar uma pequena placa decorada com cravos nesse dia 25 de Abril: foi ali que, pela primeira vez, foi cantada em público a canção "Grândola, Vila Morena". Nunca imaginaria que essa música tão importante na nossa História tivesse sido ouvida pela primeira vez ali, em Santiago de Compostela. Mais tarde, lembrei-me de ir ver como se escreve «cravos» em galego. Descobri então que a palavra é «caraveis» e lembrei-me de imediato das caravelas. Estranhas ligações se fazem nas nossas cabeças quando navegamos nos mares das línguas perigosamente próximas...

Nos dias seguintes, decidimos repetir: voltámos ao Auditorio de Galicia, para ficarmos em sossego a apreciar o verde de Santiago, com o pequeno lago como paisagem e o centro histórico lá ao fundo. A ameaça de chuva (que continuava a não aparecer) dava um toque de calma nórdica à cidade. Foi um daqueles saborosos momentos em família. A Zélia sentou-se num confortável sofá na varanda envidraçada sobre o lago para dar de mamar ao Matias. Já o Simão ouviu uma história que lhe contei a partir dum livro que estava por ali, que falava duma «coruxa da bruxa»... O restaurante estava vazio e ouvíamos os tilintar da loiça na cozinha que se preparava para o almoço (que os galegos chamam, veja lá bem, «xantar»). Estávamos felizes numa cidade bonita...

No último dia da viagem, combinámos um passeio até à praia com os nossos amigos galegos. Ainda não conhecíamos bem a costa galega e foi uma oportunidade de ver como é o Atlântico por aquelas latitudes.

Almoçámos num restaurante em Muros. As traineiras viam-se a balançar no porto. Comemos bem, conversámos, rimo-nos e fomos então para a praia, onde o Simão e a Matilda, a sobrinha dum bom amigo, jogaram à bola — e ali vi, pela primeira vez, o cabo Fisterra lá bem ao fundo (e também joguei à bola, que o Simão não permite muito tempo de descanso ao pessoal).

Fomos trocando cromos linguísticos, conversando sobre as palavras que são iguais e diferentes: eles descobriram que nós, em Portugal, dizemos «festinhas» para aquilo que os galegos chamam «alouminhos». Lembrei-me das festinhas que dou ao Simão, na cabeça ou nas costas, para ele adormecer — quando o sono não vem, ele lá me pede as «festinhas doces» a que tem direito.

Foi então, estávamos nós na praia de Ancoradoiro, que senti na cara a tal «choiva» prometida pelo oráculo. Ali mesmo ao lado, havia um pinhal. O cheiro da caruma molhada veio ter comigo, misturado com o cheiro a sal, e senti qualquer coisa de muito meu, como se estivesse numa praia da minha terra, com dunas pintalgadas de verde escuro, algas na areia a marcar o limite da maré, o cheiro dos pinheiros sob o céu nublado e gente encasacada a conversar, com as vozes enroladas no barulho da espuma e das ondas, na incessante agitação do Atlântico. Eram os cheiros, os sons e as palavras da minha infância ali mesmo, numa praia galega.


Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

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