As reportagens do Público sobre o pão em Portugal, pela Alexandra Prado Coelho e pela Francisca Gorjão Henriques, merecem uma leitura acompanhada de dois ou três papos-secos de enfiada. Dá gosto ler artigos de fundo sobre coisas aparentemente simples, mas fulcrais. Se água é vida, pão é vivência. Eish, desculpem! A sério, é difícil escrever sobre pão sem mimetizar os clichés dos copys espalhados pelas paredes das padarias modernas, mas eu amo pão e o amor é foleiro.

O pão é um pilar da democracia gastronómica: nem todos já bebemos bons licores, comemos carnes nobres ou mariscos de excelência, mas todos já comemos bom pão. Pão, em si, é uma refeição. Eu, por exemplo, faço parte dos confrades da iguaria pão com pão. O pão com nada. O pão niilista. Até porque o pão, que se alia com tanta facilidade a quase todos os ingredientes, reserva o seu direito à sua individualidade. Pão é também contexto, pelo que só há duas verdades absolutas: vamos todos morrer e as torradas sabem melhor no café do que em casa.

Pão é discurso. Pão é uma categoria argumentativa, que representa o mínimo dos mínimos, o básico, o requisito primário. Há os que dizem coisas com interesse, e há quem “não diga pão”. Já o padeiro é indiscutivelmente uma figura basilar da sociedade, o homem que tem as chaves do alvoroço, do bulício. Devemos evitar que, num futuro próximo, seja substituído por um robot enfarinhado. Não nos esqueçamos que uma das interceções inegavelmente mais interessantes da civilização ocidental acontece de madrugada, quando o bêbedo em remissão dos pecados espirituosos rejubila com o início do turno do misericordioso padeiro acabado de acordar - porque o pão também é fé, também é perdão.

O pão é consciência familiar. Ao longo dos séculos, ir ao pão mudou mudanças drásticas. Já se trocou pão por géneros, agora vai-se a padarias tipo Eric Kayser por género. Em todo o caso, ser o responsável pela falta de pão em casa é um crime lesa-pátria. Porque o português não compra pão, “vai ao pão”. Não é um simples negócio, mas uma demanda. É uma campanha militar com o fim de sequestrar o maior número possível de bolinhas acabadas de sair, aquelas que se encontrem no seu estado menos cozido, antes que sejam açambarcadas pelas restantes famílias do bairro.

O pão é o nível 1 da comfort food. Um restaurante caro pode ter o peixe mais fresco, os melhores enchidos, o serviço mais atencioso, os atoalhados mais requintados, as casas-de-banho mais reluzentes, uma carta de vinhos excecional e massagens na nuca com nacos de carne wagyu – se não tiver bom pão, não há cá pão para malucos.

Recomendações:

Há duas semanas recomendei o concerto que apresentaria o álbum, agora confirmo que The Art of Slowing Down de Slow J tem tudo para se um dos discos do ano da música portuguesa.

reality shows e bons reality shows: Pesadelo na Cozinha da TVI inclui-se no segundo. Ljubomir Stanisic tem muito jeito para ser bruto.

Recomendo morangos. É a melhor fruta e estamos na época.

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