A primeira metade do século XX foi ontem. Muitos jovens têm avós que nasceram nesse período e por isso os jovens crescem e constroem a sua identidade ouvindo contar histórias familiares na primeira pessoa. Na Ucrânia não é excepção. O que aflige as famílias ucranianas e que desperta o medo é o conteúdo dessas memórias, memórias de elefante que relembram esse invasor que travou por três vezes uma guerra de agressão contra a República Popular da Ucrânia (1917 - 1921), ocupando friamente o seu território. Memórias de uma guerra contra forças militares da República Popular da Ucrânia (1917 - 1920) e contra o exército de revoltosos ucranianos (1944 - 1950) na qual dirigentes das forças militares soviéticas mataram prisioneiros de guerra ucranianos, forçando outros a desertar para o seu lado, recorrendo à aniquilação de habitantes pacíficos.

Para que fique bem claro, vamos partir para os factos, transcrevendo os crimes apresentados no ano de 2000 pelo procurador, representante do estado ucraniano, no Tribunal Público Internacional de Vilnius, especialmente concebido para tentar julgar os crimes perpetrados durante a ocupação pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e que segue a formatação do Tribunal de Nuremberga, constituído especialmente para julgar os crimes cometidos pelos nazis.

O tribunal acusa, atestando que a liderança do PCUS:

  • Destruiu o estado ucraniano, abolindo as leis ucranianas e o seu sistema legal, dissolveu o parlamento ucraniano;
  • Submeteu os militares e funcionários públicos da República Popular da Ucrânia a medidas repressivas;
  • Aplicou medidas repressivas aos partidos políticos da Ucrânia, incluindo o partido comunista da Ucrânia, e à igreja, saqueando os seus bens;
  • Ao reprimir a resistência do povo ucraniano, recorreu a massacres, deportações e torturas;
  • Introduziu a ideologia da expansão da etnia russa no território ucraniano e a liderança comunista;
  • Reprimiu e destruiu o potencial intelectual do povo ucraniano;
  • Com base em critérios políticos, religiosos e sociais, seleccionou milhões de ucranianos para deportação da Ucrânia substituindo-os por milhões de russos, tentando com isto desequilibrar a composição da população;
  • Tendo destruído o potencial intelectual do povo ucraniano, procurou expulsar a língua ucraniana da vida pública e substituí-la pela língua russa, encorajou a geração mais jovem a usar o russo sempre e em todos os lugares, fazendo-a esquecer a língua e a cultura espiritual de seus antepassados (cometendo o crime de etnocídio);
  • Desenvolveu um mecanismo repressivo sob o qual se recorre a cruéis torturas e humilhações em larga escala, infligindo danos morais e psicológicos irreparáveis à nação;
  • Transformou o emprego de cidadãos ucranianos em trabalho forçado e com isso violou a Convenção nº 29 "Sobre o Trabalho Forçado e Obrigatório" da Organização Internacional do Trabalho de 1930;
  • Em 1921-1923, 1932-1933 e 1946-1947, condições artificiais foram criadas nas áreas rurais da Ucrânia, o que causou fome entre os agricultores e custou 13 milhões de vidas, incluindo um número maior de vidas de crianças pequenas;
  • Um grande número de unidades industriais, máquinas agrícolas e pecuária foram removidos da Ucrânia para a Rússia. Por exemplo, em dezembro de 1941, 20 fábricas inteiras da indústria leve foram retiradas; segundo os números de 20 de outubro de 1941, o PCUS requisitou e enviou à Rússia 158.000 equídeos, 1.080.700 cabeças de gado, 1.768.500 ovelhas, 168.900 porcos, 20.302 tratores; 50.000 tratores foram desmontados, divididos ou destruídos.
  • A coletivização em massa, planeada e realizada pelo regime comunista totalitário, empobreceu e, de facto, destruiu 4.600.000 propriedades pertencentes a agricultores individuais;
  • 200.000 famílias de agricultores ucranianos foram marcadas como cúlaques e por isso, reprimidas;
  • Durante o período de sementeira da primavera de 1933, 15.166 agricultores foram julgados e receberam sentenças severas;
  • De acordo com os números oficiais, no dia 1 de janeiro de 1991, 84,3 bilhões de rublos foram transferidos dos depósitos de poupança de cidadãos ucranianos, mantidos no Banco de Poupança da Ucrânia, para o banco de poupança da URSS. Esse valor totalizou cerca de 150 mil milhões de dólares.
  • Em 1921-1922, após a derrota do Exército da República Popular da Ucrânia, mais de 10.000 comandantes militares, oficiais e soldados foram executados a tiro pela sua participação na guerra de libertação nacional.
  • A 22 de novembro de 1921, o Exército Vermelho prendeu 359 homens do Exército Ucraniano e tentou forçá-los a desertar para o Exército Vermelho. Quando eles se recusaram a fazer isso, todos foram executados.

É preciso, sem medo, dar voz a essas memórias para quebrar de vez com a cegueira e o status quo em que muitas cabeças parecem querer permanecer. Talvez deste modo, num futuro mais esclarecido, e por isso também mais verdadeiro, seja mais fácil responder com ética e rigor à pergunta: “Como chegámos aqui?”.

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