O resultado das eleições deste 10 de novembro pode ter o mérito de, para ser conseguida uma solução de governo, tornar indispensável a abertura de negociações sobre a questão fundamental da reforma do Estado contemplando a realidade das diferentes identidades e nações dentro do Estado espanhol. Estas eleições confirmaram que a falta de concertação leva à radicalização, designadamente nas periferias e contribui para a volatilidade do eleitorado que não se revê nos dirigentes. Há várias lições a tirar destas eleições.

1) O crescendo da extrema-direita Vox, com o tóxico discurso sobre diversidade, direitos e liberdades está a gerar alvoroço. Parece claro que o Vox dá voz à Espanha nacionalista nostálgica da ordem franquista. Mas nada nos diz que os 3 milhões e 640 mil votos (15% dos votantes) que propiciaram 52 deputados seja um quadro para crescer ou manter. Há apenas três anos, nas eleições de 2016, o Podemos atingiu o auge com 5 milhões de votos (21%) e 71 deputados; caiu para 3,7 milhões (14,3%) e 42 deputados nas eleições de abril deste ano; agoira, caiu ainda mais, recebeu 3,1 milhões de votos (12,8%) e apenas 35 deputados. O partido Ciudadanos, há sete meses recebeu mais de 4 milhões de votos (15,8%) e elegeu 57 deputados; agora, perdeu mais de metade dos eleitores, ficou pelos 1,6 milhões (6,8%) e apenas 10 deputados. Albert Rivera, o líder que agora tomba no Ciudadanos, há escassos dois anos, era considerado o renovador em ascensão fulgurante e dado como o inevitável futuro presidente do governo de Espanha. Agora, caiu no abismo, delapidou todo o capital que tinha. Tudo é volátil na política espanhola. O Vox apareceu para ficar, mas é muito provável que o PP venha a recuperar muito desse voto, reduzindo a expressão desta extrema-direita.

2) Os partidos das direitas espanholistas apenas conseguiram eleger 6 deputados (2 pelo PP, 2 pelo Vox e 2 pelo Ciudadanos) entre os 48 eleitos pela Catalunha. No País Basco, nem PP nem Vox conseguiram eleger algum deputado. O voto nestas duas autonomias é amplamente nacionalista. Os socialistas são o único partido nacional espanhol que garante presença relevante nestas duas regiões. É uma realidade que deve incitar a liderança do PSOE a conduzir a necessária reformulação do modelo do Estado espanhol – a evolução para Federação de Estados parece o compromisso mais certeiro, ainda que por entre grandes tensões.

3) A especificidade das distintas identidades no reino de Espanha também fica evidente na Galiza, onde, entre 23 deputados, o Vox não consegue eleger um único. A maioria é partilhada pelos tradicionais PP e PSOE (10 deputados cada) a que se juntam 2 do Podemos e um do Bloco Nacionalista Galego.

4) O independentismo catalão, apesar do cansaço de dois anos de lutas, impasses, prisões e começo de distúrbios com contentores a arder e confrontos entre radicais e a polícia, resiste às divergências internas e elege 23 dos 48 deputados pela Catalunha nas Cortes de Madrid, a que se juntam os 7 de En Comú Podem, espécie de “franchising” do Podemos para a Catalunha. O Ciudadanos, que há dois anos tinha sido o partido mais votado na Catalunha e que assumiu entretanto discurso radical contra o catalanismo, caiu agora para o oitavo lugar na Catalunha. Ciudadanos e PP já se juntaram ao Vox em Madrid para defenderem a ilegalização de partidos independentistas. Seria agravar o labirinto: querem prender o milhão e meio de catalães que votaram independentista? Imaginam-se a mandar mais polícias e tropa para reprimir os catalães? Sem diálogo sério, a crise vai tornar-se perigosa.

5) Pedro Sánchez ganha, mas sai a perder destas eleições. O líder do PSOE tinha fama de bom estratega, engenho que o levou à chefia do governo em junho do ano passado. A opção que tomou de apostar nesta repetição de eleições, contando reforçar a maioria, revela-se um fracasso.  A jogada era arriscada e mostra-se irresponsável. Para Sánchez e o PSOE fica ainda mais labiríntica a procura de soluções para governar. O Podemos, que foi intransigente, sai debilitado. Sánchez, em junho, recusou gente do Podemos no governo. Agora, precisa ainda mais do Podemos que passou a valer menos e, para formar maioria parlamentar progressista, como propôs, também precisa do apoio dos nacionalistas bascos e de parte dos independentistas catalães que tanto hostilizou nas últimas semanas. Esta paisagem política parece muito turbulenta.

6) Muito poder económico e muita Europa está a desejar a formação da grande coligação, PSOE-PP, que teria amplo suporte com maioria absoluta no parlamento. Provavelmente, seria um alento para o curto prazo da economia espanhola, mas não se vê que pudesse enfrentar a crucial questão da reforma do Estado com procura de soluções que envolvam as diferentes nações em Espanha. Esse bloco central iria abrir espaço para crescimento das forças radicais, à direita e à esquerda.

7) Espanha está ideologicamente empatada. Já estava, agora está mais. O bloco das esquerdas (PSOE, UP e Más País) perdeu 7 deputados, o das direitas (PP, Vox e Ciudadanos) ganhou 3 – PP e Vox somam mais 50, mas Ciudadanos perdeu 47. Sánchez ambicionava ter maior margem de manobra, agora tem menos. O labirinto que cresceu pode ser uma oportunidade para que se revele uma liderança que, mais do que governar os assuntos correntes, conduza a indispensável reforma do Estado espanhol.

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