Por estes dias em que mudamos de ano, aparecem como cogumelos os desejos de Paz no Mundo. E, uma vez por outra, lá encontramos quem exija, para que essa paz seja completa, que os idiomas do mundo desapareçam (menos um). Um mundo a uma só língua seria muito mais pacífico, dizem. Afinal, muitos dos desentendimentos do mundo surgem porque não nos compreendemos, não é? E quando falamos línguas diferentes, não nos compreendemos. Logo, dirão com a lógica um pouco alterada pelas calorias do Natal, se falarmos todos a mesma língua virá aí a Paz Universal. Simples!

Ora, tenho dúvidas. Muitas dúvidas. Muitos dos desentendimentos surgem entre pessoas que falam a mesma língua ou que estão a compreender perfeitamente o que o outro diz, só que não gostam do que ele diz. Mais: há sociedades com várias línguas e que são muito pacíficas. A diversidade linguística não parece implicar, necessariamente, mais conflito — já a imposição de uma unidade linguística de cima para baixo parece-me ser receita para umas quantas guerras e guerrinhas.

Pensemos, no entanto, que decidimos todos, um belo dia, obrigar as crianças a falar a mesma língua por esse mundo fora. O que aconteceria a seguir? Ao fim de algumas gerações, assistiríamos a um afastamento gradual e inevitável da maneira de falar dos vários povos. Porquê? Todos usamos a língua de maneira ligeiramente diferente do vizinho: temos cérebros e aparelhos fonadores que não são iguais, somos expostos a materiais linguísticos diferentes (nem dois irmãos gémeos ouvem as mesmas palavras ao longo da vida) e, ainda por cima, dá-nos, por vezes, para inventar palavras novas. Algumas destas diferenças (não todas; nem sequer a maioria) espalham-se pelos grupos a que pertencemos. A língua muda — e muda de maneira diferente em sítios diferentes.

Estas mudanças são lentas. O vagar com que as línguas mudam pode ser visto na maneira como o português e o galego, separados politicamente há muitos séculos, ainda hoje não constituem uma barreira linguística que impeça uma boa conversa. São mudanças lentas, mas são mudanças inevitáveis. Se imaginarmos o tal mundo de uma só língua, facilmente concluímos que as mudanças linguísticas, ao fim de algumas gerações, começariam a dividir a maneira de falar entre diferentes terras, regiões, grupos sociais...

Seria possível evitá-lo? Talvez, mas para isso o mundo teria de ser uma comunidade perfeita em que as mudanças se espalhassem de forma uniforme, o que me parece para lá de irreal. Para evitar a mudança, não sendo possível criar essa comunidade perfeita (que não existe sequer num qualquer país do mundo bem real que temos à nossa volta), seria preciso um policiamento constante e implacável da língua, o que é um perfeito pesadelo. A própria criatividade literária teria de ser domada, não fosse começar a introduzir inovações na língua única imposta de cima…

Ao fim de uns poucos séculos, teríamos, talvez, uma língua na escrita e nas situações formais e outra no dia-a-dia, um pouco à semelhança do que acontece hoje nos países árabes (para dar apenas um exemplo). A língua única manter-se-ia única apenas no papel. No fundo, teríamos voltado a um mundo de várias línguas, como temos hoje, com a diferença de haver uma língua auxiliar mundial aprendida na escola, o que também não está assim tão distante do que acontece hoje. Ou seja, o esforço de obrigar uma geração de humanos a esquecer as línguas dos pais e a aprender uma mesma língua teria sido em vão.

Digo mais: mesmo que fosse possível, não seria desejável. As diferenças entre línguas picam a criatividade humana de maneira diferente. Só para dar um exemplo muito nosso: Camões nunca teria escrito Os Lusíadas noutra língua, pois o ritmo, o vocabulário e as rimas da nossa língua levaram-no por certos caminhos. No fim, criada a obra, pôde ser traduzida para as outras línguas. É apenas um exemplo, mas um exemplo que mostra como a diversidade linguística enriquece todas as culturas, através da faísca criativa do contacto entre línguas — e ainda através da tradução, que traz obras criadas numa língua, com a sua maneira de levar os falantes a dizer certas coisas, para as outras línguas.

E, se virmos bem, o problema das línguas é menor do que parece. Ou melhor: há barreiras mais complicadas. Os seres humanos inventam mil e uma maneiras de se desentenderem, mas entendem-se melhor entre línguas do que pensamos. Como? Para começar, aprendemos as línguas uns dos outros. O normal, pelo mundo fora, é que uma pessoa saiba mais do que uma língua — basta ir a uma aldeia qualquer em África, onde é habitualíssimo que uma pessoa saiba quatro línguas. Depois, aproveitamos a proximidade entre línguas — os falantes de línguas próximas rapidamente se adaptam a falar com os outros, se quiserem fazer o esforço (nem sempre querem, mas esse é outro problema). Entre línguas mais distantes, usamos gestos e sons e ensinamos palavras simples uns aos outros em poucos minutos. Em várias épocas, houve também línguas que serviram para o contacto entre povos diferentes, como acontece hoje em dia com o inglês básico que usamos para comunicar, por exemplo, com os alemães. Por fim, claro, sempre houve tradutores...

Não é de agora: os seres humanos sempre viveram entre línguas — e assim continuaremos pelos séculos fora. Mais vale aproveitar…

Bom Ano — em todas as línguas!


Marco Neves | Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. É autor da Gramática para Todos — O Português na Ponta da Língua.

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