Se os jogadores da nossa Selecção apurarem o ouvido, que língua ouvirão da boca dos luxemburgueses? A resposta é mais difícil do que parece: afinal, pelas ruas do Grão-Ducado, lêem-se jornais em alemão, mas os nomes das ruas estão em francês… Se perguntarmos a um habitante que língua fala em casa, ele talvez nos diga “luxemburguês” — se não se der o caso de responder “português”, o que não será assim tão difícil, tendo em conta o número de compatriotas que por lá vivem.

Que confusão linguística é esta num país tão pequeno?

Para compreender o que se passa, temos de olhar para o que acontece com as várias línguas germânicas, um grupo que vai do inglês ao islandês, passando pelo sueco e pelo alemão, sem esquecer o holandês e mais umas quantas. No centro da Europa, na zona da Alemanha e arredores, falam-se as línguas germânicas ocidentais.

Esse território — que vai do Norte da Bélgica até à Áustria, passando pela Holanda, pela Alemanha e pela Suíça (e, claro, pelo Luxemburgo) — apresenta aquilo que os linguistas chamam um continuum dialectal: não há fronteiras marcadas entre diferentes línguas. Cada aldeia fala algo parecido com a aldeia do lado, mas algo muito diferente da aldeia do outro lado deste imenso território. Aquilo que se fala na rua de certas terras alemãs perto da fronteira com a Holanda está mais próximo do holandês ou do frísio (outra língua da Holanda) do que daquilo que se fala na Baviera ou na Áustria.

Por cima deste continuum temos as línguas-padrão: o neerlandês, na Holanda e na Bélgica, e o alemão nos outros países. Por baixo da designação “alemão”, a variedade é tremenda: um suíço, ao falar alemão suíço, é incompreensível para um berlinês. Para sorte deste último, o suíço também saberá falar alemão-padrão. No fundo, o falante suíço é bilingue: fala o seu alemão próprio, com uma gramática distinta do alemão nosso conhecido, mas fala também alemão-padrão (para complicar as coisas, este alemão-padrão tem as suas diferenças em relação ao alemão-padrão da Alemanha).

Ora, o Luxemburgo tinha uma situação parecida com a Suíça: na rua, a população falava um dialecto germânico muito próprio, bem distinto do alemão-padrão. No entanto, na escola aprendiam alemão-padrão — e ainda francês, que foi a língua do Estado durante muito tempo.

Em 1984, o pequeno grão-ducado decidiu padronizar aquilo que já por lá se falava, criando uma língua nacional. Surgiu a língua luxemburguesa, com dicionários, livros de gramática, aulas na escola. De forma inteligente, o país não abandonou as línguas dos vizinhos. No sistema escolar, os alunos começam a ler e a escrever na sua língua, o luxemburguês, avançando depois para o ensino em francês e em alemão. Quando chegam ao final do percurso escolar, falam e escrevem as três línguas.

Para quem estiver curioso, aqui fica uma frase que retirei do website oficial do Governo do Luxemburgo, nas três línguas oficiais. A primeira é o luxemburguês, a segunda o alemão e a terceira o francês. As duas primeiras são parecidas, mas não serão mais parecidas do que a mesma frase em diferentes línguas latinas.

  • Lëtzebuerg ass eng parlamentaresch Demokratie a Form vun enger konstitutioneller Monarchie. 
  • Luxemburg ist eine parlamentarische Demokratie in Form einer konstitutionellen Monarchie. 
  • Le Luxembourg est une démocratie parlementaire sous la forme d'une monarchie constitutionnelle. 

O uso das três línguas varia muito: há muitos jornais em alemão e francês, mas menos em luxemburguês; os luxemburgueses falam, entre si, em luxemburguês, mas falarão as outras duas línguas em situações mais formais; as leis estão, em geral, escritas em francês, embora muitos dos debates no Parlamento sejam em luxemburguês…

A complexidade é tremenda — mas, no fundo, reflecte aquilo que acontece em qualquer sociedade, com diferentes formas da língua a serem usadas em diferentes contextos: um português não fala da mesma maneira à mesa do jantar e no Parlamento. A peculiaridade do Luxemburgo é que as formas diferentes são três línguas.

O país funciona com três línguas — o que não me parece dramático. Os luxemburgueses aprendem a escrever no seu idioma, o que é sempre aconselhável, mas mantêm acesso directo a tradições literárias distintas, possibilidade de falar com os vizinhos sem dificuldade e ainda a ginástica mental que advém do uso de várias línguas no dia-a-dia.

E no futebol? Imagino que falem entre si na língua nacional, mas com palavras e frases nas outras línguas — afinal, os idiomas, da boca para fora, não têm fronteiras tão marcadas como na escrita. Falam em luxemburguês — mas sabem insultar o árbitro em francês e alemão.


Marco Neves | Escreve sobre línguas e outras viagens no blogue Certas Palavras. É autor da Gramática para Todos — O Português na Ponta da Língua.

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