Eu pasmo com a utilização da preciosa Língua Portuguesa e pasmo todos os dias. Muitas vezes, acontece-me admirar aquela palavra que faz parte do vocabulário de alguém e que não ouvia há muito, palavras que me surpreendem, que se mantêm vivas. Tenho um amigo cuja adversativa favorita é “não obstante”. Esta terminologia está incorrecta e antes que me peguem por aí, já que há sempre quem queira ser hostil ou jocoso, pois faço a emenda e faço jus ao dicionário que tenho à mão: não obstante, uma locução conjuntiva cujo significado se refere a uma situação de oposição a uma outra ideia apresentada, mas que não impede sua concretização.

Hoje tive o infeliz acaso de me cruzar com uma dama de boas famílias, casa posta e anéis de ouro verdadeiro no dedo, bom relógio, fatinho de marca francesa, mala a condizer. No espaço de meia hora, a dita senhora, com quem não me cruzarei nunca mais, o que, verdade seja dita, facilita muito esta minha opção de tema para a crónica desta semana, bombardeou-me com vários “tamém” e, sem excepção, todas as frases que proferiu começaram com “é assim”. Faltou-me, no final do encontro, o “então vá”, mas não se pode ter tudo.

Como é que uma pessoa com estudos e tal, todo o pedigree que reclama educação, consegue falar assim? É certo que as pessoas falam mal, todos nós. Engolimos palavras, a nossa dicção é um desastre, a construção frásica está contaminada com inglesismos e afins, está repleta de opções linguísticas que herdámos, na sua maioria do tal país irmão, o Brasil. Portanto, hoje há muita gente que opta pelo verbo “falar”, quando na verdade o que pretende dizer se ajusta ao verbo “dizer”.

E a senhora disse: “Ele falou que o verde era melhor”. Com sotaque ficaria perfeito, assim foi só mais um arrepio que me sacudiu a alma e, a certa altura, admito sem pudor, deixei de perceber qual era o objectivo da nossa reunião, mantive-me concentrada nas calinadas do português e pasmei. Pasmei por me pasmar, pasmei por me parece estranho que assim fosse. Sim, as pessoas não são o que vestem, mas são também (com b!) a forma como falam (aqui do verbo falar!). Quando virei as costas à dita cuja assassina da língua mãe ainda tive esta pérola: “Já vou ter com vocês e, para além disso, olhem eu sou uma ovelha ranhosa”.

Morri com tanto ranho a escorrer – diz-se ovelha ronhosa, ou pelo menos deveria ser assim – e matutei naquela ideia de que “para além” está a metafísica. Comentei esta minha aventura sociológica e linguística com um adolescente. Este, atento, disse-me ficar perturbado com frases que começam assim. “tenho um amigo meu” ou “há uns anos atrás”. Ficámos os dois à cata de mais erros praticados com a regularidade matemática que a asneira sem punição permite. Assim, debatemos o verbo “realizar” e “o protagonista principal” e, ainda, onde e como usar o verbo “pôr” e o verbo “colocar”.

A língua evolui, contamina-se, é um tecido vivo e não pretendo ser purista da língua, longe de mim. O que me aborrece é perceber que diminuímos o vocabulário à conta da facilitação da leitura e da escrita – sim, cá estou eu a bater nas redes sociais por terem mais poder do que a Literatura, mas tenham paciência, aceitem que custa menos, eu sou assim – e que não temos cuidado com a Língua que nos dá identidade, que nos projecta na História e nos une. Aprende-se a falar melhor quando se é bom leitor? Não é discutível. Aprende-se a falar e a escrever melhor.

Conclusão? É assim, tamém com vocês, há uns anos atrás, não tinham realizado isto, certo?

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