A Hungria e a Polónia vetaram a aprovação do orçamento plurianual da União Europeia para 2021-2027, podendo provocar um cessar fogo temporário na aguardada bazuca. O motivo da posição de Budapeste e Varsóvia prende-se com a exigência do cumprimento das normas do Estado de Direito para que um estado-membro tenha acesso à suprarreferida artilharia orçamental pesada. A Polónia e a Hungria, ofendidas por este claro atentado ao seu direito de suprimir direitos, não viram outra hipótese senão boicotar esta medida.

Ah, mas enfrentar a burocracia europeia é mau agora e era bom em 2010? Bom. Os líderes que enfrentaram a Europa na passada década — na crise das dívidas — fizeram-no porque as regras orçamentais levavam a que oprimissem o seu povo, já estes líderes que enfrentam a Europa agora fazem-no porque as regras de estado de direito impedem que oprimam o seu povo. É um pouco diferente. A Europa passou de ser dura com o défice orçamental para ser dura com o défice democrático. É uma rigidez mais compreensível. Pessoalmente, tenho uma leve preferência pelos burocratas europeus sobre os autocratas europeus. Surpreendentemente, é preciso ser um estado democrático para beneficiar de uma união de estados democráticos.

Poderá isto motivar mais saídas de estados-membros da UE? Talvez. Se cedermos à Polónia e à Hungria e continuarmos a fechar os olhos à violação de direitos humanos que ocorre por lá, fica claro que quem dita as regras são os que as violam: se calhar o mais viável fosse sairmos todos da UE menos esses dois países. De seguida, os outros 26 criavam um novo grupo de Whatsapp sem os proscritos.

Por outro lado, se não cedermos e forem eles a sair, fico sinceramente mais preocupado com as opções de Erasmus dos estudantes dos próximos anos do que propriamente com o ressurgimento de um bloco de Leste. Nesse sentido, os representantes na Europa não devem deitar já a toalha ao chão em relação a este imbróglio: não há maior símbolo da integração europeia do que o poder de compra de um português numa discoteca de Budapeste. É essa a única razão que nos deve manter na mesa das negociações.

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