O mundo foi assolado pela última crise financeira, em 2008, com a falência do Lehman Brothers, e o mundo mudou para pior. Vieram as falências de grandes bancos, falência de empresas, famílias e estados, que levou a Europa a lançar um pacote de ajuda às suas instituições financeiras no valor de 1,17 triliões de euros. O Estado, no período de ajustamento, tornou-se mais fraco e durante mais de uma década não se investiu em novas contratações para áreas fundamentais dos serviços públicos, impondo uma degradação inaceitável e desguarnecendo as competências do estado na defesa do interesse público, em favor dos interesses privados.

Em Portugal, no período da troika, o governo PSD/CDS vendeu tudo ao desbarato. REN, EDP, TAP, ANA Aeroportos, NAV, CTT, Fidelidade, EGF e até o Pavilhão do Atlântico foi vendido por uns ridículos 21,2 milhões de euros. Importa registar e não esquecer que tudo fizeram para concessionar a privados, nos últimos meses de mandato, as linhas rentáveis da CP (linha de Cascais e Sintra), a Carris, o metro de Lisboa e os SCTP do Porto.

Neste furor ideológico, escaparam por muito pouco a CGD, a RTP e algumas empresas sólidas e rentáveis do Grupo Águas de Portugal, como a EPAL, no sector das águas, e que garante o serviço público de abastecimento de água, bem escasso e essencial à vida. Pouco mais ficou na gestão do Estado, situação que considero única na Europa, e incompreensível quando comparamos os ajustamentos financeiros realizados pela troika na Grécia e na Irlanda. A Grécia, por exemplo, e que estava financeiramente e politicamente bastante pior do que nós, não optou por privatizar ao desbarato como se verificou em Portugal.

Para não ficarem dúvidas, partilho alguns dos negócios desastrados que foram efectuados por esse governo do PSD/CDS: 

Nos CTT a degradação do serviço público foi impressionante com a privatização, fechando lojas em muitos municípios e com degradação evidente de serviço. Mas em apenas 7 anos foram distribuídos 326 milhões em dividendos. A posição do estado foi vendida por 909 milhões, ou seja três vezes o valor dos dividendos. Um negócio, que quanto mais lojas fechar mais lucro dá. É a isto que se chama boa gestão privada para fazer um serviço na sua essência de cariz público?

Na EDP o estado vendeu a sua última participação, ficando fora gestão e do planeamento estratégico, por 2,19 mil milhões a uma empresa estatal chinesa. Em apenas 7 anos os dividendos distribuídos foram de 1,17 mil milhões de euros, ou seja, 40% do valor da venda. Será que perante esta evidência e outros factos ainda iremos ter problemas de consciência para cortar a direito nas rendas excessivas, em defesa do interesse público?

Na REN (o estado abdicou de 40% do capital em 2012) o pagamento de dividendos aos accionistas neste período de tempo representou 50% do valor da compra. Para não tirarmos outro tipo de conclusões, temos que assumir que somos péssimos vendedores e extraordinários clientes pois somos peritos em vender por 1/10 do valor e depois a comprar pelo dobro o custo dos serviços. 

Quem decidiu este caminho teve um período de quatro anos onde tudo foi permitido em nome da emergência financeira. Mas tudo legal, e de papel passado com selo branco, porque quem comprou foram estados ou grandes grupos económicos. Se fosse o Robles do Bloco de Esquerda ou o Zé da esquina tinham sido crucificados na praça pública. No mínimo, teriam sido investigados, constituídos arguidos, e acusados de tráfico de influências e branqueamento de capitais (tanto vendedor como compradores).

Tivemos aliás a ousadia de vender, por trocos, os nossos anéis quase todos e o desplante de colocar na esfera do estado negócios privados, totalmente falidos, a serem pagos pelos contribuintes.

Mas afinal, não eram os gestores dos bancos privados os ícones da excelência na gestão?

Lá tivemos, nós contribuintes, que alombar com o BPN e o BES (fora os outros de que já não sei o nome), e ainda dar a garantia do estado para um empréstimo de 28 mil milhões a mais meia dúzia de bancos para não falirem nesse mesmo ano. Garantem-nos que um dia irão repor a ajuda do estado, mas entretanto vão distribuindo alegremente dividendos aos accionistas. Excelentes gestores privados, pois continuam a gozar com o estado e os contribuintes, merecem um prémio tipo TAP!

A questão que se impõem fazer é se todas as privatizações efectuadas neste período eram mesmo necessárias para defender o país e os portugueses. E a resposta é não! O que estava previsto no programa da troika era a necessidade de tomar medidas no valor de 4,7 mil milhões de euros e o governo de então aproveitou este momento difícil para todos para alienar, de forma irresponsável, riqueza futura dos portugueses, por meia dúzia de trocos, realizando o dobro das privatizações previstas e que renderam cerca de 9,2 mil milhões de euros. Seria determinante que as universidades portuguesas estudassem a fundo este tema pois daria belas teses de doutoramento e dariam assim um excelente contributo para a verdadeira história de Portugal. O meu avô, Victor Sá, explicou-me desde pequenino que se não conhecemos a história da humanidade, do nosso país, das empresas e das instituições, jamais seremos capazes de as transformar de forma inspiradora e positiva.

Só com a história verdadeira deste resgate, despida de politiquices e visões sectárias, poderemos regenerar os partidos políticos e atrair novos protagonistas para que a história não se volte a repetir uma terceira vez.

Nota final: relativamente à resposta do Presidente da APIAM, ao meu último artigo de opinião importa efectuar um breve comentário:

  • A água da torneira é um dos produtos alimentares mais seguro e mais controlado, sendo sujeito diariamente a milhares de análises. Os resultados são públicos e transparentes pois estão publicados nas páginas de internet de todas as entidades gestoras, na ERSAR e é também divulgado na factura enviada para todos os clientes. Infelizmente, não encontrei na página de internet da APIAM nenhuma informação relativa ao resultado das análises à qualidade das águas, assim como, na página de internet das principais marcas do sector das águas naturais e minerais.
  • Quando o sector do azeite e do café ultrapassam do ponto de vista da sustentabilidade e da inovação o sector da água natural e mineral engarrafada, que explora um recurso natural e que é de todos nós, não é preciso dizer mais nada. Sugiro ao Presidente da Associação ver o excelente exemplo de inovação da delta com a criação da cápsula 0% plástico ou ver as garrafas biológicas e compostáveis que estão a começar a implementar no sector do Azeite (Evoo plastic free). Para a associação das águas naturais e minerais, o compromisso anunciado na sua página de internet é pífio e passo a citar: “ A indústria do sector está fortemente empenhada na prevenção por redução do peso da embalagem na origem. Reduzir o peso das embalagens, preservando a qualidade e especificidades das águas minerais naturais e das águas de nascente e a conveniência do utilizador, é um desafio constante da indústria.” Dá que pensar.

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