Estávamos em Fevereiro de 2020, o mundo ainda andava a ver se entendia esta coisa do vírus. Eunice Muñoz chegou com um dos filhos e sorriu-me. Demos o abraço da praxe e lembrei-me que a minha bisavó dizia, tu vais crescer e eu vou minguar. Eunice foi-se tornando mais frágil, mais pequenina fisicamente e, porventura, maior em tudo o resto.

Tinha no teatro o seu lugar. Na primeira vez que conversámos, na década de 80 do século XX, explicou-me como era andar atrás dos pais num teatrinho de montar. Como isso a assustava, mas depois o bicho instalou-se. Só podia ser actriz. A primeira vez que pisou o palco do Teatro Nacional Dona Maria tinha 13 anos de idade.

Naquela tarde, há pouco mais de dois anos, depois de conversarmos, Eunice encheu-se daquele talento gigante, vestiu a personagem e fez uma produção de fotografia para a revista Cristina sem recusar lantejoulas ou outros ditames da moda.

Quando tudo terminou, abraçámo-nos de novo. Disse-lhe, ainda a vejo por aí no teatro e ela respondeu, claro que sim, é o mais natural.

Eunice Muñoz era generosa nas conversas que começava. Não era fácil de entrevistar, é certo, as suas respostas, na maioria, eram concisas. Eu tive sorte. Sempre tivemos esse elo de empatia fácil que não surge com todos os entrevistados.

Não recusava temas. Tinha a sua fé, as suas ideias, gostava de viver, de trabalhar, de um bom texto, da família biológica e alargada.

Dizia que devia tudo à Senhora Dona Amélia Rey Colaço. Quantos actores dirão o mesmo sobre ela? Muitos, suspeito. O teatro português tem o seu nome para todo o sempre.

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