Trump não deve ter conseguido persuadir algum dos eleitores indecisos. Revelou-se impreparado para responder à contínua artilharia argumentativa da adversária. Talvez tenha confiado no habitual improviso fácil, ficou enredado em esquivas. Nenhum eleitor moderado terá ficado a pensar que a América pode ser um país melhor sob a liderança errática de um magnata do imobiliário com ele tem sido. E cujo mérito como empreendedor Hillary deixou em questão ao expor práticas que revelam ser um homem em quem não se pode fiar e que várias vezes não pagou o devido aos fornecedores.

Tanto Hillary como Donald esconderam desta vez alguma da atitude que gera tantas rejeições: Donald mostrou-se contido, soube resistir ao impulso selvagem que o põe abrasivo, provocador e muitas vezes vil a expor-se misógino e racista; Hillary tentou disfarçar a imagem altiva que muitas vezes a coloca como pedante, esteve mais humana, mais próxima das pessoas, evitando a postura robótica que tantas vezes transmite.

Donald evitou o recorrente recurso à rixa e à estridência mais grosseira para, conforme o novo guião de imagem que pretende passar, parecer com pose presidencial. Não foi incendiário mas deu-se mal com esta tática, o seu discurso ficou à deriva.

A seis semanas da eleição presidencial Hillary Clinton ficou mais perto de ser eleita Madam President. Tinha chegado a este primeiro round em desaceleração, mas parte tonificada para os próximos dois debates, em 9 e 19 de outubro.

A métrica do quadro eleitoral já era claramente favorável a Hillary Clinton. Nas últimas seis votações presidenciais nos EUA – desde 1992 - 18 estados e o distrito de Columbia votaram sempre na candidatura democrata.  Este conjunto representa 242 votos eleitorais. Significa que bastam mais 28 para atingir os 270 que asseguram a eleição pelo Colégio Eleitoral. Mesmo que Trump consiga puxar para ele estados com eleitorado mais volátil como Carolina do Norte (15 votos), Indiana (11) ou Colorado (9), é muito escassa a possibilidade de atingir a maioria. Teria de vencer na Florida (29), no Ohio (18) e ainda precisaria de conquistar a Pensilavânia (20). Parece fora de hipótese. Hillary lidera as sondagens na Pensilvânia com os mesmos seis pontos percentuais de avanço que Obama tinha a seis semanas da eleição em 2008 e 2012.

Com o debate desta segunda-feira Hillary estancou um período em que Donald lhe recuperava terreno. Ganhou esta batalha mas ainda lhe falta ganhar a guerra eleitoral. Ficou mais favorita mas ainda faltam 42 dias e dois debates em que Trump vai tentar algum golpe com efeito que o faça ressurgir. Ninguém pode excluir surpresas mas só uma grande surpresa pode levar à reviravolta.  Hillary segue agora mais à frente. Mas há que ter em conta o muito eleitorado sem esperança que se deixa levar pela tentação do voto num Trump que representa a descontinuidade de um sistema político detestado e que é simbolizado por Hillary. Sendo que Hillary, embora passando a convicção de competência para ser presidente, continua a não mostrar capacidade para fazer sonhar.

Por agora, o próximo episódio deste show político está marcado para 9 de outubro. Hillary mostrou-se ao comando do guião.

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Também precisamos de rir, sim. Uma história sobre a produção da gargalhada nos shows de TV.

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