Ainda não tinha passado um mês sobre o atentado, que se julgava ato isolado, junto ao parlamento de Londres, quando, em 18 de abril, Theresa May levou à rainha a proposta de eleições antecipadas, após apenas dois anos de legislatura iniciada com Cameron.

O partido Conservador tinha maioria absoluta, com 330 dos 650 lugares no parlamento britânico. Theresa May, primeira-ministra sem passar pelas urnas, convocou eleições com a intenção de aumentar a sua maioria, obter um mandato próprio e referendar as suas propostas particulares de versão dura do Brexit.

A primeira-ministra May contava ser coroada como rainha da política, herdeira da reputação da dama de ferro, Thatcher. Esperava triunfar por goleada. Apostava no descrédito dos ultranacionalistas UKIP pós-Farage e no desconcerto dos trabalhistas. Julgava ir impor a Jeremy Corbyn, líder do que aparecia nos media como um debilitado partido Trabalhista, uma derrota arrasadora, atirando-o para uma representação acanhada.

Porém, seis semanas de campanha puseram as sondagens a anunciar uma quase reviravolta nas previsões. Em 22 de maio, aconteceu o cruel ataque à Manchester Arena, à saída do concerto pop adolescente de Ariana Grande, que fez parar o relógio da campanha eleitoral. Nessa ocasião já as sondagens alertavam para meia catástrofe para a líder conservadora: em vez de ampliar a maioria que era absoluta, perdia-a, caía de 330 para 310 deputados, num quadro que coloca o partido Conservador à mercê das oposições. Os trabalhistas, que tinham 227, aparecem com 259 deputados, enquanto os nacionalistas escoceses estão à beira de conquistar quase todos os 50 lugares na Escócia, e os liberais-democratas à volta dos 10 deputados. (ver aqui a sondagem YouGov atualizada dia a dia)

Instalou-se a tendência para o que no jargão político britânico é um “hung parliament”:  um parlamento paralisado, pendente da negociação de alianças. A diferença percentual entre conservadores e trabalhistas caiu, em um mês, de 20 para escassos quatro pontos.

A campanha eleitoral revelou que as propostas de Theresa May suscitam a desconfiança de muitos eleitores antes tidos como fiéis. O que mais deteriorou a imagem da líder conservadora foi o pacote de cortes na assistência aos reformados, que poderia levar os tantos que padecem de alzheimer ou parkinson a terem de suportar os custos do acompanhamento médico, caso disponham de mais de 100 mil libras ou tenham casa própria. É o que James Corbyn chamou de imposto sobre a demência. Também muito criticado o anúncio de cortes na gratuitidade nas cantinas escolares.

O líder trabalhista apareceu com propostas populares nas políticas de saúde, de educação e de habitação. Ergueu a bandeira da indignação. Surgiu apelativo ao eleitorado mais jovem, embora criticado por alguns dos mais pragmáticos que lhe perguntam onde é que vai buscar o dinheiro para tanta utopia. Responde que vai aumentar os encargos fiscais para os 5% mais ricos no país, a alta finança. Também propõe grande melhoramento da rede de transportes, colocando os comboios outra vez no domínio público, eficiência energética e banda larga 4G para todos. A estratégia conservadora caricatura-o como Robin dos Bosques, desligado da realidade. Corbyn emergiu nesta campanha: de facto é um político robusto, mas o seu discurso pacifista, de grande investimento público e de luta contra os privilégios de alguns mete medo a muita gente.

A conservadora Theresa May, apoiada mais pelo campo que pela cidade, contestada por quase tudo o que tenha a marca da ilustração e da intelectualidade, é cinzenta mas tenaz. Tem fama de forte a negociar e reclamar. Falta-lhe dar resposta à desigualdade crescente. Não escapa à impressão de se preocupar mais com os abastados do que com os excluídos. Foi ministra do Interior nos governos de Cameron e é acusada de ter enfraquecido as forças de segurança ao deixar sair cerca de 20 mil agentes.

Está para se ver que efeito eleitoral poderão ter na quinta-feira os dois atentados (Manchester e Londres) dos últimos 15 dias e, sobretudo, o discurso de Theresa May, que não resistiu a usar a cartada que os acontecimentos lhe meteram na bandeja: politizou os ataques em vésperas do voto. Está a causar controvérsia a mensagem endereçada à ampla comunidade muçulmana de que tem beneficiado de demasiada tolerância. Acrescentou a acusação velada de que faz vista grossa a acções de gente que está contra o país que os acolhe. A oposição aponta o dedo a May por, enquanto ministra do Interior, ter reduzido o orçamento da polícia.

Uma comissão parlamentar apontou, após os atentados de julho de 2005 em Londres, que os serviços especiais de segurança MI5 precisavam de ter 200 mil membros. Tinham e continuam a ter menos de cinco mil.

O Reino Unido tem muitas décadas de experiência na luta anti-terrorista. Tem uma longa história de sobrevivência à adversidade. Os bombardeamentos alemães na Segunda Grande Guerra levaram mais de 40 mil vidas. A violência em volta da Irlanda do Norte custou mais de 3.000 mortes, sendo que 500 só no ano de 1972. O Reino Unido passou por tudo isto com extraordinária resiliência. No último fim de semana os britânicos voltaram a mostrar o melhor de si quando em Borough High Street, Soutwark e Stoney Street, para além de todas as ruas adjacentes à London Bridge, todas as portas privadas se abriram para acolher quem procurava refúgio.

A dois dias das eleições, a primeira-ministra que em março exibia confiança e imagem de competência, agora parece cercada pela incerteza. Theresa May tem o trunfo de parecer forte para lidar com a economia e negociar o Brexit. Mas quanto mais ela é exposta ao microscópio da opinião pública menos parece convincente. Furtou-se ao debate. É vista agora de modo mais negativo do que no início da campanha. Acontece o contrário com Corbyn, que aparece como um homem digno e decente cujas propostas para a saúde, educação e serviço público em geral conquistaram simpatias. Mas levanta o temor de ser um primeiro-ministro esbanjador.

Lloyd George, um liberal com grande consciência social, primeiro-ministro britânico na Primeira Guerra Mundial, escreveu no livro de memórias que os boletins de voto são um punhal nas mãos dos cidadãos. O ajuste de contas no voto desta quinta-feira tem em fundo a grande necessidade de humanismo.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Alta crise entre as petro-monarquias do Golfo: a Arábia Saudita e os seus aliados Emiratos e Bahrein decidiram isolar o Qatar. O Egito juntou-se ao grupo. Acusam o Qatar de financiar o terrorismo. O Qatar, país pequeno mas multimilionário, aspira ser uma espécie de Suíça do Médio Oriente. Cultiva boas relações com o Irão, o que é visto pelos sauditas, neste tempo em que estão de braço dado com Trump, como intolerável. O Qatar é o país da Al Jazeera, de um colosso do transporte aéreo e o organizador do Mundial de Futebol de 2022.  O capitalismo europeu está cheio de dinheiro do Qatar. O que pode dar esta crise? Ver aqui e aqui.

Meio século sobre os seis fulminantes dias que mudaram o mundo. Vale percorrer este multimédia do El País e escutar as reportagens de José Manuel Rosendo, como esta, na Antena 1.

No Brasil, Temer é confrontado amanhã com decisões judiciais de alto risco para a continuidade na presidência. O Globo estampa que é a república brasileira sob investigação. A Época antevê agravamento da crise brasileira. O Correio Braziliense explica como o futuro imediato está na mão de sete juízes.