Por todo o lado, brancos que, como é óbvio, não são racistas estão cansados do racismo. Não é bem do racismo. Não estão cansados que os negros sejam mandados para a terra deles por mais que sejam tanto daqui como qualquer um dos racistas. Estão é cansados que se publiquem tantos posts sobre isso que estão a ocupar o lugar de fotos da praia e de taças de açaí.

Pobres dos brancos que estão cansados do racismo. Não estão cansados do privilégio que a nossa cor de pele nos confere para partirmos à frente das outras cores no que diz respeito à habitação, saúde e educação, e em respeito ao próprio respeito. Estão é cansados do desconforto que faz tremer o delicado coração branco sempre que se fala nisso. Não estão cansados que uma pessoa como o Bruno Candé seja assassinada com quatro balas nas costas, mais uma do que os filhos que deixa, enquanto o assassino lhe diz que devia estar na senzala juntamente com a mãe que o homicida diz violar. Não. Estão é cansados porque agora o racismo está na moda. Não estão cansados que os negros sejam vistos com desconfiança nos transportes públicos, restaurantes ou qualquer que seja o lado. Estão é cansados de agora ser tudo racismo. Não estão cansados de sentir vergonha por Portugal ter traficado 6 (seis) milhões de africanos. Estão é cansados que o seu orgulho nacional seja ferido sempre que diz os tão aclamados “descobrimentos” foram também um genocídio. Os brancos estão aborrecidos com isto do racismo, que chatice, sim, até há algumas pessoas racistas, mas não há racismo sistémico. Não estão aborrecidos com a falta de representatividade de pessoas negras em cargos de poder, de decisão, na televisão, no jornalismo, nas forças policiais, na justiça, cujo acesso a tais posições é vedado sistemicamente. Estão é aborrecidos com isto, de repente, também quererem tudo.

Os brancos estão cansados de tantos outros brancos também continuarem a insistir nisto do racismo. Que canseira que é o choradinho de querer, de exigir, de lutar por uma sociedade mais justa, com direitos iguais para todos. Não é uma canseira que o racismo esteja em todo o lado, como nas frases “não és como os outros, tu até és quase branco”, “para negra, até és muito bonita”, “apesar de negro, ele não incomodava ninguém”, ou que os negros sejam tão racializados que o seu suor, como se fosse diferente do dos brancos, tem um nome próprio e tão pejorativo. Ou, ainda na linguagem, que a violência racista esteja sempre presente como na desumanização dos termos “mestiço” (rafeiro), “mulata” (de mula) e “cabrita”, relegando-os à categoria de animais.

O racismo já cansa aos brancos que acham que perdem direitos e liberdades se os negros e os ciganos os tiverem na mesma medida. Os brancos estão cansados de fazer scroll no seu iPhone 10, novinho em folha, e ter de levar com mais publicações sobre racismo. É, de facto, esgotante. Se calhar mais vale fecharmos os olhos e esperar que passe. Negar que existe. Insistir que não é sistémico. Deixar que a moda do anti-racismo se esbata. Ou então não. E podemos continuar a ouvir – mais que tudo, ouvir - a escrever, a fazer posts, a ir para a rua, a questionar-nos, a rever as nossas atitudes, a educar-nos, a construir a nossa empatia, a nossa alteridade. Até que as coisas comecem a mudar.
Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Born a Crime: Já devo ter sugerido este livro do Trevor Noah, mas aqui fica novamente.
- Angela Davis: Mulheres, Raça e Classe.

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