2016 traumatizou-nos. Aqueles que fizeram directa para acompanhar as eleições norte-americanas naquela noite de Novembro tiveram ainda forças, antes de se meterem já de dia na cama, para informar os seus amigos no Whatsapp da hecatombe que acabara de acontecer. No dia seguinte, a incredulidade tomou conta do discurso, cada utilizador do Facebook e do Twitter tornou-se num especialista em geopolítica e um novo sentimento emergiu: o despeito por sondagens.

Em 2016, decidimos que não faríamos mais promessas de fidelidade a tendências de voto, que nunca mais iríamos cair no engodo das probabilidades de determinado candidato, que jamais voltaríamos a entregar o nosso coração a gráficos de barras. Tinha chegado ao fim o tempo de as prever, a partir daquele momento só acreditaríamos naquilo que pudéssemos ver e, desde então, nunca mais fizemos planos. Entretanto, passaram-se quatro anos. Para mim, está na altura de voltar a acreditar no amor que há nos estudos de opinião.

Os "trust issues" que desenvolvemos ao longo da última meia-década estão a prejudicar a nossa relação com a democracia. A desconfiança e o cinismo perante a possibilidade das coisas virem a melhorar conferem-nos uma espécie de aconchego no desconforto de quem se conformou que nada do que possa correr bem, vai correr bem. Sim, Hillary estava à frente nas sondagens e perdeu as eleições no colégio eleitoral. Mas 2020 não é 2016: o Trump não é uma cara nova na política, mas sim o incompetente incumbente. As sondagens dão uma consistente margem de 10 pontos a Joe Biden — permitam-me assumir a posição irresponsável e dissidente de guardar em mim algum optimismo, achando que ele vai mesmo ganhar.

Em 2016, toda a gente sofria de excesso de confiança, hoje padecemos de falta de confiança. Todos nos lembramos da mítica capa da revista do Expresso, de 28 de outubro de 2016, que haveria de ser partilhada jocosamente nos meses subsequentes. “Yes She Can”, era o título. A frase “Hillary Clinton está prestes a fazer história quando a 8 de novembro se tornar a primeira mulher eleita Presidente dos Estados Unidos da América” lançava o artigo de Clara Ferreira Alves. A capa envelheceu mal? Sim. Devemos, por causa de um ano eleitoral, entregar-nos para sempre ao cepticismo militante? Acho que não. Joe Biden vai ganhar as eleições. Podem tirar print screen.

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