Nem todos os adeptos de futebol são santos. Porém, um ano depois de o futebol passar a ser disputado em estádios vazios, está provado que não será certamente a sua presença ruidosa que torna o desporto em Portugal num lodaçal. A consonância dos adeptos a entoar cânticos foi substituída pela dissonância cognitiva dos dirigentes a ignorar sinais de alarme. Poderia dizer-se que tudo isto culminou na agressão de um repórter de imagem da TVI, mas a verdade é que, no que toca a descer o nível, o futebol português parece ter sempre a capacidade de subir de nível.

Os adeptos que pagam bilhete não podem ir aos estádios. Mas há uns poucos adeptos por convite que não têm perdido um jogo, integrando elitistas comitivas. Não compram bilhete de época, mas têm lugar cativo na corte de figuras obscuras do futebol. Aquele que faz parte de um séquito aceita as regras do rei, reconhece-lhe autoridade e, por estar ali também para escudar o chefe, física ou mediaticamente, sente-se também ele protegido. É nesse reino que floresce a sensação de impunidade, em que cortesãos profissionais se julgam mandatados para agredir um jornalista.

Agredir, num desporto, é feio. Agredir um adversário é algo altamente condenável. Agredir um jornalista nas imediações de um estádio é um acto da mais repugnante covardia. É que o jornalista não tem uma comitiva para o proteger, cartilheiros para se indignarem na televisão por cabo ou milhões de adeptos para retaliarem a partir de um qualquer viaduto de uma autoestrada. O jornalista, no futebol português, joga sempre fora. Para aqueles que vivem do fogo posto desportivo, as agressões a um jornalista não serão objectivamente condenadas per se, mas como arma de arremesso ao clube que, desta vez, as proporcionou. Até porque, no futebol, o jornalista é o inimigo comum dos acéfalos, que não hesitam em desvalorizar aquilo que não percebem ser atentados ao seu direito à informação, enfartados que estão dos pequenos-almoços de propaganda que todos os três grandes levam à boca dos adeptos que tenham fome para os papar.

As imagens que a TVI divulgou são como uma cena de um filme da máfia. Parabéns ao repórter que, alvo de intimidação, conseguiu ainda captar perfeitamente a desfaçatez do agressor, que se precipita para o assalto, não sem antes olhar para trás, assegurando-se que as costas estavam quentes. É a descrição perfeita do soldado raso do futebol português: corajoso na matilha, pusilânime sozinho. Note-se que não estamos nos anos 90. Até porque agredir jornalistas quando há câmaras a filmar denota a perda da sofisticação pela qual os antigos métodos da intimidação se pautavam. Por outro lado, pode significar simplesmente que não há qualquer medo de consequências. A Liga valida esta ideia, com um comunicado que nem mínimos olímpicos qualifica. Apelar à serenidade quando um repórter foi agredido é como apelar ao pudor quando uma orgia vai a meio.

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