Esta quinta-feira, 3 de Janeiro, a Câmara dos Representantes do Congresso Norte Americano elegeu o seu Presidente para o 116º mandato. É uma Câmara inédita sob vários aspectos: a primeira com 87 mulheres e 43 negras, tem a mulher mais nova de sempre (Alexandria Ocasio-Cortez, com 29 anos), as primeiras negras eleitas pelo Massachusetts (Ayanna Pressley) e pelo Connecticut (Jahana Hayes), as primeiras duas nativas americanas (Sharice Davids e Deb Haaland), as primeiras duas latinas do Texas (Veronica Escobar e Sylvia Garcia) e a primeira mulher eleita pelo Iowa (Abby Finkenauer).

Dos 435 lugares, 235 pertencem aos democratas, 199 aos republicanos e um está por preencher. (Eventualmente irá para os democratas, mas tanto faz.)

Como é da tradição, o primeiro acto de uma Câmara é eleger o Presidente, escolhido na maioria. Sempre se pensou que seria Nancy Pelosi, mas nos últimos meses, desde que se soube o resultado das eleições, desenhou-se um movimento contra ela; seria demasiado velha, com 78 anos, e demasiado “establishment” – esteve em todas desde a sua primeira eleição, nos idos de 1987, e apoiou abertamente Hilary Clinton, um nome hoje tóxico. Alexandra Ocasio-Cortez, que ainda não era nascida quando Nancy foi para Washington, era quem tinha maior visibilidade na linha mais jovem e mais à esquerda que acabava de entrar de rompante no hemiciclo e queria uma mudança, tanto de estratégia como de imagem. Mas nem Alexandra nem os 16 representantes que inicialmente eram contra Nancy tinham a experiência ou o número de votos para disputar com uma veterana política. A representante de Cleveland, Marcia Fudge, uma negra de 66 anos com seis mandatos no currículo, ainda se chegou à frente, mas Nancy negociou com ela a direcção da recém-renascida Comissão Administrativa Eleitoral, que tinha sido dissolvida em 2013. E prometeu a todos que não voltaria a candidatar-se a Presidente da Câmara.

Assim, enquanto decorria a votação, Nancy sentou-se na bancada e nem pestanejou quando um colega propôs a candidatura do ex-Vice-Presidente Joe Biden. Acenando para os amigos e conversando com alguns, nem pareceu reparar nas propostas e votos contrários. No final, 16 democratas votaram contra ela, nada de alarmante. Criou-se assim outro ineditismo: a primeira mulher Presidente da Câmara dos Representantes em 2007-11 é também a primeira a sê-lo por duas vezes. (depois de ser Presidente da Minoria, entre 2011 e 2017).

Nancy Pelosi torna-se assim o terceiro político mais poderoso de Washington (os outros são Mitch McConnell, o Presidente do Senado, e Donald Trump). E é a segunda na linha para a Presidência, depois de Mike Pence. Contudo, em termos práticos, Pelosi passa a ser a principal adversária do Presidente – imediatamente, uma vez que está em curso uma luta muito mediática entre Trump e os democratas a propósito do Orçamento – luta essa que é muito mais entre ela e ele, pois os outros possíveis intervenientes, Mitch McConnell e Chuck Schumer, líder da minoria no Senado, são muito mais recatados, e Mike Pence, o vice, tem uma agenda própria, que o leva a não se manifestar sobre nada. Não é sem razão que a revista online Daily Beast publicou uma peça antológica a propor que Hollywood lhe dê o Óscar de Melhor Actor Secundário.

A questão é séria: desde 22 de Dezembro que cerca de 800 mil funcionários federais estão em casa ou a trabalhar sem receber. Não só a raiva dos funcionários aumenta diariamente, como muitos serviços fecharam ou a dão sinais de rápida deterioração. Desde 2013 que não havia um encerramento (“shutdown”) do aparelho de Estado tão longo, mas nessa altura a solução – ou seja, a aprovação do Orçamento – nunca foi tão radicalmente discutida.

Já antes da sua escolha, Nancy, Chuck Schummer e Trump se tinham envolvido numa discussão violenta em frente das câmeras, em que o Presidente disse que não se importava de ficar com as culpas, mas não assinava o Orçamento sem uma provisão de 5,5 mil milhões de dólares para construir o famigerado muro com o México. Ora os democratas, com Nancy à cabeça, já disseram que não aprovam tal despesa, que consideram ineficiente e dispendiosa. E Trump continua a insistir que sem o muro, uma das suas principais promessas eleitorais, não há pão para ninguém. Agora mudou ligeiramente de posição – já diz que a culpa não é dele, mas sim dos democratas, que não querem proteger o país dos violadores e traficantes que ameaçam a fronteira sul. Mas muito menos fala de outra promessa eleitoral, de que seria o México a pagar o muro.

Os democratas chegaram a oferecer 1,6 mil milhões para “medidas de segurança” na fronteira (mais pessoal, drones, uma rede de galinheiro aqui e ali), em vez do que consideram – segundo David Cicilline, democrata de Rhode Island – “uma solução do século XIX para um problema do século XXI.”

Nestas águas agitadas da polarização navega muito bem Nancy Pelosi. Tem na bolsa uma série de petardos para atirar a Trump: a nova Câmara vai controlar uma série de Comissões Especiais que se preparam para investigar as finanças, os negócios e as aventuras sexuais de Trump; e o Procurador Especial Robert Muller está quase a publicar o relatório de dois anos de investigação que não pode deixar de fornecer artilharia pesada aos democratas.

Para uma profissional competente e empenhada (e muito bonita, segundo confidenciou no FB o nosso ex-embaixador Seixas da Costa...) esta situação é perfeita. Rica desde sempre (graças aos bons investimentos do marido), católica, mãe de seis filhos, apreciadora de Armani e assertiva no falar, Nancy Patrícia D’Alesandro Pelosi, tem energia e experiência para enfrentar Trump em qualquer frente. Já enfrentou Bush, entre 2007 e 2010, sem nunca ceder.

Contudo, Nancy tem a noção dos equilíbrios necessários e das armadilhas inevitáveis no jogo da política. Quando alguns democratas propuseram um processo de impedimento (“Impeachment”) de Bush, baseando-se nas informações falsas que tinha usado para iniciar a segunda Guerra do Iraque, Pelosi opôs-se. Do mesmo modo, já declarou que não tem como objectivo principal o impedimento de Donald Trump; isso dependerá do que Mueller descobrir. Tem a noção de que um processo de impedimento teria poucas possibilidades no Senado de maioria republicana e acirraria as bases de Trump contra o que consideram ser uma perseguição sistemática ao Presidente. “O impedimento não pode ser por razões políticas”, afirmou numa entrevista, em vésperas de ser eleita, “Temos de ver o que aparece (na investigação de Mueller) em termos legais.”

Ao longo dos anos, Nancy Pelosi sempre defendeu vigorosamente todas as causas liberais, desde a Interrupção Voluntária da Gravidez e facilitar a vida aos imigrantes. Sobre este último tema, que actualmente é uma das bandeiras de Trump, ela chegou a citar o Presidente Ronald Reagan: “Se fecharmos a porta a novos americanos, vamos perder muito em breve a nossa liderança no mundo”. Foi a favor da reforma da segurança social de Obama (“Obamacare”), dos direitos LBGT, da legalização da canábis; e foi contra as duas guerras do Iraque, a tortura dos prisioneiros de guerra (“waterboarding”) e a ausência de controlos sobre a compra de armas de guerra por cidadãos comuns.

Noutra entrevista, no programa Today, a poucas horas de ser empossada, a jornalista Savannah Guthrie perguntou-lhe porque é tão pouco querida – os seus índices de popularidade estão abaixo dos de Trump. Pelosi, nada incomodada, respondeu que era o resultado da guerra eleitoral: “Os republicanos gastaram mais de cem milhões de dólares em propaganda – 137 mil spots publicitários tinham o meu nome. E eles são contra mim porque sou eficiente. Sou uma legisladora muito boa. E sou eficiente a receber donativos de campanha. A melhor. Por isso têm de me deitar abaixo e foi isso que tentaram”.

Na verdade, Nancy não precisa de ser popular, porque nunca concorreu a uma eleição nacional. Só precisa de vencer no distrito que representa, na Califórnia, onde ganha sempre com maiorias absolutas. Isso tem-lhe permitido fazer campanha a angariar fundos para os democratas em dificuldades noutros distritos.

Uma coisa que ela não precisa de demonstrar é a sua honestidade. Sempre defendeu claramente aquilo em que acredita e nunca fez compromissos duvidosos. Agora, que vai enfrentar a maior batalha da sua vida, é uma qualidade importante. Quando se retirar, daqui a quatro anos, será como a mulher mais influente de sempre na política dos Estados Unidos – e de cabeça levantada.

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