Ao longo das últimas décadas, houve funcionalidades da Internet que surgiram, dominaram o mercado e desapareceram sem deixar grande rasto. O MSN Messenger faleceu, o Napster também foi à vida, já ninguém contrai vírus através do Limewire e felizmente não tenho acesso ao meu lamentável perfil de Hi5. Mesmo em Portugal, muitos de nós lembrar-se-ão do Diário Digital, do portal de leilões Miau ou mesmo do site de humor refinado Vitominas. Todos estes anacronismos pré-históricos pereceram com a chegada da modernidade digital. Todos? Nem todos. Uma plataforma de debate semântico e gramatical sobreviveu a todos os avanços de design, funcionalidade e interatividade: o Ciberdúvidas.

Para o mês que vem, o Ciberdúvidas completa 25 anos. Em anos de internet, estamos a falar de um decano. Foi fundado quando a Geração Z ainda não era viva, em janeiro de 1997. Ou seja, quando o Ciberdúvidas foi criado não podíamos pesquisar no Google “ciberdúvidas” para chegar ao Ciberdúvidas, uma vez que o motor de busca ainda não tinha nascido. Ah, pois. Larry Page e Sergey Brin? Não, não. Para mim, os pioneiros do ciberespaço que merecem a eternidade são José Mário Costa e João Carreira Bom.

A longevidade do Ciberdúvidas é fascinante. Diversas vezes ocorre o seguinte cenário: um indivíduo qualquer teve uma dúvida de ortografia no fim dos anos 90 para que nós, em 2021, pudéssemos usar a resposta a essa dúvida como arma de arremesso numa discussão com um amigo. É assumidamente um consultório, onde os portugueses vão tratar dores lexicais, etimológicas, semânticas ou gramaticais. Sempre que pesquisamos coisas como “vai ao encontro ou vai de encontro”, “taquicardia ou taquicárdia”, “acarretar ou acartar”, “como se pronuncia líderes”, “senão ou se não”, “porque ou por que”, “bricolage ou bricolagem” a Internet chega-se para lá e pede ao Ciberdúvidas que resolva a incerteza.

Pode ter defeitos, mas o Ciberdúvidas já me deu muito mais a mim do que eu lhe dei a ele. Estou em dívida para com a dádiva que é o Ciberdúvidas. Conspurcando os versos de David Mourão-Ferreira, "que ciberdúvida que ciberdívida que ciberdádiva / que ciberduvidávida afinal a vida". Se tem o apelo visual de uma rede social do futuro? De modo algum. Mas dá imenso jeito e era bom que fosse conservado. E não, não vale a pena tentar adaptá-lo à actualidade, do género, torná-lo numa espécie de Tinder para pessoas que gostam de corrigir os erros ortográficos do cônjuge (já agora, como é que se pronuncia “cônjuge”? Enfim, talvez seja melhor confirmar no Ciberdúvidas).

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