Bem sei que o papel da mulher é sempre difícil de cumprir, talvez por existir essa culpa que deriva da narrativa do pecado original. E sim, sangramos todos os meses, cumprimos o castigo de Eva. Nossa Senhora podia ter sido uma figura redentora para as mulheres, mas nem isso. Restaurou uma certa ideia, mas roubou-nos a possibilidade de existirmos sexualmente. Esta herança judaico-cristã que nos prende a tantos preceitos e ideias feitas precisa - ainda! – de combate e, por isso, muitas mulheres e muitos homens se dizem feministas.

No Brasil, uma grande vedeta da Globo, José Mayer – o típico actor que desempenhou ao longo da vida o papel do macho sedutor, garanhão, capaz de tudo e impossível de se resistir – foi para casa carpir as suas mágoas porque uma mulher, Susllem Tonani, de 28 anos, disse: já chega.

Depois de meses de assédio, a responsável pelo guarda-roupa da telenovela na qual José Mayer é (era) artista principal, decidiu que estava na hora de denunciar os toques, as insinuações, os convites, a situação de poder que o actor considerou certamente que tinha face a uma rapariguinha (sim, porque dos 28 para os 67, já se sabe, ela é uma miúda, não sabe nada da vida e deveria era estar agradecida por tanta atenção. Consigo mesmo ouvir José Mayer pensar estas palavrinhas todas!).

Primeiro, houve a recusa, a negação, uma acusação vil. Perante testemunhas e o mau estar evidente, com a empresa a não olhar para o lado, José Mayer não teve outro remédio senão fazer o mea culpa e ir para casa com o rabinho entre as pernas.

A Globo suspendeu a actividade de José Mayer e as mulheres daquela empresa, actrizes e não só, surgiram com uma t-shirt que diz: Mexeu com uma, mexeu com todas, criando o movimento #ChegadeAssédio.

Muitas vezes, as mulheres são acusadas de falta de solidariedade entre si, uma espécie de falta de corporativismo. No Brasil provou-se que as mulheres podem dizer que não, mesmo numa empresa como a Globo, mesmo perante uma estrela das telenovelas com todos os pergaminhos.

José Mayer diz que tem de mudar, que é uma questão geracional. Coitado, parece que foi ensinado assim. O aviso público está feito: na Globo o assédio não é mais invisível, não é permitido, e é punido. Se fosse cá, como seria? Deixo à vossa imaginação.

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