A noite eleitoral americana vai prolongar-se por vários dias de incerteza e tensão que pode ser perigosa.

Há desde já algumas certezas: Donald Trump consegue votação poderosa e, uma vez mais, derrota os institutos de sondagens e os analistas que antecipavam vitória clara de Joe Biden. Ainda não se sabe quem vai ganhar estado a estado e a maioria que garante a presidência. Mas sabe-se que Trump faz muito melhor do que o anunciado e está vencedor em vários dos estados que eram dele mas onde era dado perdedor, em alguns por ampla margem. Não há o maremoto, sequer a onda azul que os democratas esperavam. A maré subiu com o vermelho dos republicanos.

Outra certeza e este é capaz de ser o único ponto que as sondagens souberam ver: o recurso, em números que são recorde estrondoso, ao voto antecipado, de 102 milhões de americanos. Grande parte está ainda por contar. Em vários estados os votos por correio são os últimos a ser contados, nomeadamente na Pensilvânia (20 membros do colégio eleitoral). Michigan (16 membros do colégio eleitoral) e Wisconsin (10 membros do colégio eleitoral).

Haverá quem já esteja a argumentar: mas quase todas as estimativas sobre o que acontece nos EUA estão erradas. É uma posição a considerar. Mas, tendo em conta que foi a campanha democrata quem mais batalhou pelo voto antecipado, parece razoável supor-se a probabilidade de mais peso democrata nesse voto prévio.

Na Pensilvânia, a lei prevê que sejam aceites os votos enviados por correio e recebidos até à próxima sexta-feira, dia 6, desde que enviados até ao dia 3. Resulta daqui a perspetiva de demora no apuramento do veredito final dos eleitores.

Será que o voto postal vai permitir a Biden superar a vantagem que Trump tem no voto depositado na urna no dia das eleições?

O resultado dos votos expressos vai ficar conhecido até sexta-feira. Se Trump sair ganhador, a presidência deve ficar resolvida nesse momento. Se Biden aparecer para a frente, a decisão transita para o Supremo Tribunal, com Trump a requerer que não sejam considerados os votos postais tardios. É um cenário de “thriller” que levanta crispações que inquietam uma América ainda mais fraturada. As redes sociais vão ficar a arder. Sendo que o resultado final da eleição passa a por à prova a solidez jurídica do topo institucional dos Estados Unidos.

Neste momento, os democratas, ainda que com motivos para esperança, sentem desilusão. Não conseguiram a grande onda favorável. Perceberam que a vasta comunidade hispânica da Florida continua trumpista. E ainda não sabem o que decidiu o eleitorado dos estados da velha indústria entre os Grandes Lagos e a Costa Leste.

A Pensilvânia parece, cada vez mais, ser a chave da eleição presidencial. Há tendências claras: as grandes cidades como Filadélfia votam Biden e o muito campo vota de modo maciço em Trump.

A incerteza continua, tanto pode levar à normalização política com Biden como à continuação do terramoto Trump. Está forte a perspetiva de o epílogo vir a ser decidido no Supremo Tribunal. A instituição judicial dos Estados Unidos tem fama de robusta, mas a independência tem sido posta em causa pela politização na nomeação dos juízes, que são sete. Vão, certamente, cumprir a lei, mas as leis às vezes têm a armadilha de alçapões que abrigam a prevalência de critérios políticos sobre o critério legal.

Trump-superman está a contar com essa possibilidade. Os comentadores estão a refletir sobre como, quatro anos depois, continuamos a não entender toda a dimensão do fenómeno Trump. Mas Biden ainda mantem o horizonte de vitória, embora por curta margem.

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