Não são poucas as coisas na vida que são gratuitas, além da capacidade de sonhar e de voltar a repensar o sonho, imaginando que podemos voar, que ganhámos o euromilhões ou outra coisa. O amor também deveria ser gratuito, sem dívidas ou cobranças, livre, deveria ser livre. A confiança, essa, é mais desafiadora, implica tempo e provas dadas, consolidação de uma ideia: esta pessoa está cá para mim. Tenho confiança em algumas pessoas, nas minhas pessoas. E deu-me imenso trabalho conseguir entregar-me nas mãos de algumas delas, hesitei, temi não ser compreendida, duvidei. Felizmente, tive a inteligência de dar tempo ao tempo e perceber que sim, aquela pessoa é também alguém que pode entrar no meu pequeníssimo mundo. As relações entre as pessoas não são lineares, não são isentas de obstáculos, mas se existir confiança, pois será meio caminho andado. Isto tudo vem a propósito do quê?

Regresso ao meu tema predilecto dos últimos tempos, a desilusão que sinto com o Estado, a forma como trata o cidadão que paga impostos, que é cumpridor. Se todos tivéssemos confiança no Estado, como nas relações pessoais, seria tudo bastante mais fácil. Uma amiga minha, outra que batalha por conquistar a sua paz trabalhando há ano que nem uma louca (louca saudável, porque louca pode ser um adjectivo qualificativo de alto gabarito), vive uma situação bizarra: está inscrita nas finanças como empregada por conta de outro e, ao mesmo tempo, como sócia gerente de uma empresa. Houve um erro, a minha amiga não trabalha para outra empresa, é a mesma, mas aparece inscrita das duas formas.

Com a pandemia e a possibilidade de pedir apoio do Estado é confrontada com isto: não pode ser porque está inscrita como sendo empregada por conta de outrem e não pode ser porque está inscrita como sócia gerente da empresa X que, já agora acrescento, é uma unipessoal.

Ela explica o melhor que pode, por telefone, presencialmente, por email, há aqui um engano, eu sou apenas sócia gerente desta empresa que, para mais, é uma unipessoal. Os meses vão passando com a rapidez ingrata que o tempo impõe, ela escreve, ela telefona, ela consulta o contabilista, consulta um advogado. O Estado não tem confiança na sua contribuidora, na sua cidadã, ela que precisa de auxílio para superar estes tempos e está numa situação inesperada: do ponto de vista fiscal existe duplamente, mas na verdade não existe para ser considerada para apoio. O Estado não tem confiança no que diz, no que prova há meses consecutivos. Sonhar é gratuito, confiar implica tempo e provas dadas. O Estado deveria olhar a carreira tributária da minha amiga e pedir desculpa, sim, a senhora cumpre com tudo, pedimos desculpa, diga lá como a podemos ajudar?

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