Boris Johnson na rua da Oura, a famosa rua de diversão noturna de Albufeira. Entra num bar, pede um Sex on The Beach com uma palhinha desmedidamente grande para os dias de preocupação ambiental que se vivem hoje. Vai ter com os amigos ao bar do lado, para cantar em karaoke o Don’t Look Back in Anger dos Oasis. Leva uns empurrões de um escocês e inicia-se uma rixa. Anda à porrada com o porteiro. Carga policial da GNR. Volta para Newcastle no dia seguinte.

Boris Johnson chega às nove e vinte seis da manhã à filial de Slough da empresa de papel Wernham Hogg, da qual é gerente. Está perfeitamente convencido de que este será mais um produtivo dia de trabalho em que demonstrará ser o bem-disposto e espirituoso chefe que agrada e entretém todos os funcionários. Mas hoje é dia de despedir pessoas.

Boris Johnson aguarda que lhe abram a porta da sala de imprensa. Será apresentado como o novo treinador do MK Dons, clube de futebol da cidade de Milton Keynes, recém-promovido à League One. Os objetivos não são tímidos, passam pela subida ao Championship e por uma boa prestação em pelo menos uma das taças. Uma coisa é certa: Boris é o homem para o cargo.

Todos estes três cenários seriam mais agradáveis do que aquele que se confirma hoje. Boris Johnson vai estar ao leme do Reino Unido momento mais decisivo da sua história desde a II Guerra Mundial.

Boris Johnson seria uma boa personagem de uma daquelas séries distópicas com ótima pontuação no IMDB. É um daqueles humoristas que se tornam políticos, sem ser realmente humorista e sem ter realmente ideologia. É um oportunista que escolhe o que deve pensar consoante aquilo que lhe trouxer mais dividendos políticos. Recorre tanto à ponderação como ao amaciador. Era mesmo dele que o Reino Unido precisava agora.

Boris Johnson lucrará hoje da posição daquele que é o impaciente inglês. O eleitor que votou Brexit em 2016 e que já se está a enervar com tantos adiamentos. Quer lá saber se deixa de comprar parmesão no supermercado ou se precisa de um visto para visitar os pais radicados em Marbella, quer é que a saída avance, com ou sem acordo.

Com Boris, é provável que o adeus seja de facto no fim de outubro. Sem acordo, claro. É óbvio que Boris tem uma atração pelo abismo e a capacidade de negociação de uma criança numa loja de doces. Para além disso, ele olha para o espelho e vê-se na pele de Winston Churchill. Não se importará de facilitar uma crise para ter a oportunidade de mimetizar os discursos de motivação nacional do Prémio Nobel da Literatura.

É deixá-lo brincar aos líderes do século XX até perceber as consequências de partilhar eleitorado com Nigel Farage. É que, nas próximas legislativas, é bem possível que o Churchill das barracas tenha menos votos do que o Hitler das barracas.

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