A minha relação com o basquetebol é semelhante à que tenho com os marshmallows. Sei que é popular nos Estados Unidos, mas não vejo razão para ficar acordado até tarde a consumir tal coisa. Não acompanho a NBA e a única versão do desporto que pratiquei foi a de arremessar papelinhos para o caixote do lixo da sala de aula. Modalidade na qual, aliás, apresentava um desempenho abaixo da média da turma. É até possível que não saiba bem as regras.

De certo que milhares e milhares de portugueses terão sido mais afetados do que eu pela notícia da morte de Kobe Bryant. Conhecia o seu nome, sabia que estava associado aos Lakers, que acaba por ser a equipa que as pessoas que nunca veem NBA conhecem, e que realmente era muito bom - porque as pessoas me diziam que era muito bom - e não porque alguma vez eu tenha dito “eish, que grande jogada de basquetebol do senhor Kobe”. Para terem noção do quanto eu estava fora, assim que soube do acidente fatal, fui pesquisar à Wikipédia para saber se Kobe ainda estava no ativo ou não. Não estava. Deveria saber isso.

Em suma, não quero fingir, para granjear simpatia, que uma mediática morte de uma das figuras mais importantes de um desporto que de modo algum acompanho me deixou em lágrimas. Uma morte daquelas causa no mínimo consternação a quem está emocionalmente desligado do desporto em causa, mas é natural que os que cresceram com Kobe estejam devastados e que tenham a necessidade de prestar homenagem. Essas homenagens vão gerar curiosidade - e possivelmente levar a que ignorantes do basquete como eu saibam um pouco mais do legado do Kobe.

Penso que é isto que os jornais desportivos portugueses não perceberam, quando concluíram que a manchete de segunda-feira não podia ser o desaparecimento de uma indelével lenda do desporto, quando tinha ocorrido uma inaudita vitória do primeiro classificado do campeonato português na casa do décimo sexto classificado do campeonato português. Os jornais desportivos de Espanha - no estilo dos quais, aliás, os portugueses se inspiram - descartaram o facto desse país se ter tornado campeã europeia de andebol, para fazer capas icónicas sobre a morte de Kobe.

É verdade que o basquetebol não é um desporto popular em Portugal, mas aos jornais desportivos deveria caber incutir alguma cultura desportiva - e não só lucrar da falta dela. Uma capa com Kobe Bryant não ia destruir as vendas dos três jornais desportivos. Afinal, o dia de amanhã traz-nos sempre um “tribunal unânime”, um “Sérgio reúne com SAD”, um “Bruno preso por detalhes”, um “conheça a sereia que enfeitiçou jogador x”. O que afecta a relevância destes jornais desportivos é não quererem saber de desporto.

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