Uma profissão que é abandonada relativamente cedo, onde a maioria dos profissionais leva menos de mil euros para casa (mais de 20% auferem em média menos de 700 euros), onde são escassas as possibilidades de progredir na carreira. E é só parte do retrato.

Quando se pergunta aos jornalistas qual é o estado da profissão, resume-se quase tudo a uma palavra, precariedade. Das condições de trabalho, aos valores que norteiam a atividade.

Temos falsos recibos verdes, freelancers mal pagos, fornadas de estagiários não remunerados, e medo de dizer “não” ao diretor, à administração, porque o emprego escasseia. Depois, temos a ética que se releva e o código que não se respeita, a ditadura do clique, a necessidade de fazer sempre mais, sempre mais rápido, sempre sem tempo para sair da cadeira, deixar o ecrã, ir “até ao fim da rua”. Por fim (se bem que a lista não parece ter fim), devemos ter Ordem ou não ter? Há sindicato, mas não há camaradas. O Conselho Deontológico deve ou não ser um organismo independente? O fim da ERC, a polémica liderança da Comissão da Carteira, o apontar do dedo… tanto, demais, talvez. 

E tudo isto a par de receitas cada vez mais magras, orçamentos cada vez mais apertados e, consequentemente, grupos de media e projetos de informação cada vez mais pressionados.

O 4º Congresso de Jornalistas - o primeiro a que tive a oportunidade de ir - foi tudo menos animador para as novas gerações, largas dezenas de jovens que vieram sentar-se nas cadeiras do São Jorge, certamente crentes de que têm um lugar, o seu lugar, nisto do Jornalismo. Eu também acreditava, e acredito.

Seria irresponsável dizer que a autocrítica não é relevante. É, afinal de contas, o ponto de partida para melhorar. Seria ingénuo pensar que a precarização da profissão seria lateral. Não, ela domina todos os aspetos: das relações laborais, às expectativas, à qualidade daquilo que hoje se é capaz de oferecer ao leitor, telespetador, ouvinte, utilizador. O Jornalismo está chateado consigo próprio.

Aqueles a quem cabia denunciar a arbitrariedade, a desigualdade, o desrespeito, a ilegalidade, sentem-se hoje profundamente injustiçados. E, sabem, a culpa é também sua. Zanga, aversão, irritação, desprezo, indignação. Revolta, foi revolta que se sentiu neste congresso.

Mas precisamos de mais, precisamos de respostas, soluções, ideias, propostas, de futuro. Devemo-lo a nós e a quem servimos. Para falar de ética, deontologia, independência e condições dignas de trabalho é preciso falar de negócio. 

Como chega o dinheiro às nossas redações? Como é que ele é gasto? Talvez devêssemos fazer reportagens sobre isto. Sabendo mais estamos mais próximos de exigir mudança.

Como medimos e vendemos audiência? A tão preciosa “atenção” do público, a moeda de troca. É preciso ter a coragem de uniformizar para que com verdade se lute pela sustentabilidade do negócio. 

E novas fontes de rendimento? Vamos ver exemplos como o TBrand Studio? O que distingue branded content de content marketing? Que regras irão nortear a produção desse tipo de conteúdos para que não se comprometa a credibilidade perante o leitor?

E, já agora, as notificações? Como fazê-las, como as vamos monetizar? Como fazer disto um serviço pelo qual o leitor esteja disposto a pagar? Valerá mesmo a pena na pressa do push oferecer de bandeja um serviço? Não foi esse o erro cometido com a internet? E, sim, acreditem, há caminho, basta parar para refletir.

Já ponderaram que ao Facebook basta listar e abrir links através da sua barra de pesquisa para se tornar uma versão melhorada do Google? Já ponderaram que com Instagram e Snapchat o Facebook poderá tentar o mesmo [concentrar conteúdo] e acabar com a relevância das apps que nos custam milhares de euros a criar e a alimentar?

E quem fala de Facebook, fala de Spotify, Netflix, iTunes. São novos modelos de distribuição de conteúdo a que devemos estar atentos porque, no fim do dia, a distribuição da informação é parte significativa do problema da rentabilidade do Jornalismo hoje. 

E o jornalismo de luxo? Ainda neste congresso se questionava o que fez a Apple que nós não conseguimos fazer com o Jornalismo. Criou um produto de luxo. O iPhone não é muito distante de uma Monocle, cuja edição especial custa cerca de 18 euros. É uma questão de estatuto. Menos público, maiores margens. Há aqui um modelo de negócio, um caminho? Será que não vale a pena parar para falar disto também?

Que novos modelos e estruturas de jornalismo devemos ter? Um consórcio de jornalistas de investigação portugueses, que nos permita partilhar os custos dos trabalhos de maior fôlego? Projetos apoiados por fundos, ou subsidiados como cinema - porque sim, a informação é fundamental na sociedade. 

Vamos questionar as percentagens que cada acionista pode deter num órgão de informação? Vamos limitar o endividamento de um órgão de comunicação social?

E o canibalismo informativo que todos praticamos? Há que dar a notícia, é certo, mas como o fazer sem prejudicar o órgão de comunicação social que suportou os custos de produção? Linkar sempre, limitar o número de parágrafos? Podemos chegar a terreno comum?

Ficou esmagado em perguntas? Desculpe, ficaram tantas por abordar neste congresso (e, sim, seria impossível falar de tudo em quatro dias). As minhas dúvidas - e possibilidades - são mais focadas no digital - porque é o meu território natural - mas há que fazer o mesmo esforço nas restantes áreas. O nosso papel também é questionar. Não deixemos o Jornalismo ser tomado de assalto.

Não acho que responder a tudo isto nos vá ensinar a ser bons jornalistas. Precisamos de aprender e praticar a técnica, a ética e o propósito. No entanto, se nos escudarmos da responsabilidade de enfrentar o que está por vir de frente, receio que não tenhamos tempo ou oportunidade de fazer esse Jornalismo de qualidade que tanto defendemos, fundamental para a sobrevivência da profissão, essencial para a democracia.

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