Nesse tempo, a FNAC ainda não existia por cá, nem sequer em Espanha - e por isso fazia parte do nosso roteiro turístico, em França, em quase todas as cidades onde já havia FNAC, uma romagem àquele generoso numero de pisos cheios de disco e livros, com uma zona limitada dedicada aos computadores e demais produtos electrónicos.

Passaram mais de 20 anos. Esta semana, uma noticia de jornal anunciava a abertura em Lisboa da primeira “FNAC Connect”, explicada pela sua directora de marketing desta forma: "O que diferencia esta loja das outras FNAC é o seu teor tecnológico, porque 99% dos produtos que estão aqui são de tecnologia. E na realidade esta acaba por ser a 'maior' loja da FNAC, porque no próprio dia tem mais referências do que, inclusive, o Colombo. É uma loja que apesar de ser pequena por dentro, é enorme. Conseguimos aceder a todo o catálogo da FNAC e no próprio dia ter acesso a qualquer produto”. Ou seja, escrevia a “Briefing”, revista especializada em marketing e publicidade, “um formato que privilegia, sobretudo, os wearables, a Internet das Coisas e a realidade virtual”.

Vou traduzir tudo por miúdos: em pouco mais de 20 anos, uma marca que era conhecida por reunir um catálogo consistente de discos e livros,  transformou-se numa praça de produtos tecnológicos, digitais, que nos podem transmitir palavras e canções, mas são na essência electrodomésticos - e reduziu, neste caso a zero, o espaço dedicado aos livros e aos discos. Quem frequenta os outros estabelecimentos do grupo já tinha percebido a redistribuição regular do espaço físico, sempre em detrimento dos livros e dos discos. Agora, a filosofia é assumida até às ultimas consequências.

Não venho aqui criticar ou defender a opção da FNAC, que obviamente define as suas prioridades em função do que os seus consumidores determinam no momento em que decidem as suas compras nas lojas - mas vejo como exemplar e paradigmática a evolução comercial da FNAC nestas duas dezenas de anos. Ela acompanha uma profunda mudança no consumo do que designamos - ou associamos… - a cultura. Nem os livros nem os discos vão morrer - mas estas antecipações comerciais mostram que a força comercial dos chamados “conteúdos” vai depender mais das plataformas que nos permitem aceder-lhes do que da sua intrínseca qualidade. À melhor reportagem de investigação do mundo de nada servirá a sua relevância se o potencial consumidor não tiver o dispositivo que a receba e reproduza em condições aceitáveis. Nesse sentido, o que a FNAC está a fazer é voltar à teoria do clássico Marshall McLuhan: "o meio é a mensagem”.

Felizmente, por cada pedra que se atira, há uma pedrada que se leva. Na verdade, há mensagens que são mais fortes do que os meios que as emitem, e mesmo mais urgentes - mas McLuhan não sabia que ainda haviam de nascer as redes sociais. Talvez seja por isso que eu as defenda, apesar dos seus defeitos e manias. É que por mais dispositivos que nos embrulhem mensagens, ainda nada substitui a emoção de ouvir cantar a Madredeus em português numa rua de Paris. E por mais dispositivos que nos encaminhem para uma só mensagem, ou um só livro, ou só o top das canções, haverá sempre a nascer algures um novo espaço de liberdade. Qualquer que seja o seu nome.

Para ler em papel e seguir:

Ter a coragem de lançar um jornal é algo entre a loucura e a paixão. Ou ambas. O novo Jornal Económico merece, de todos que ainda gostam de jornais e acham o jornalismo indispensável, o nosso apoio. O site está aqui, mas a edição em papel sai todas as sextas. É favor comprar…

É portuguesa, tem cuidado na edição e no grafismo, resiste no mercado num tempo difícil. Tem uma pobre edição digital, mas tem uma edição em papel que, não sendo perfeita, merece bem os 2 euros que custa. E para quem gosta de cozinhar e comer, é útil…

O titulo é óbvio, mas também isso é valor acrescentado. Chama-se “Comer”!

Não tem site na internet, e tem uma página confusa no Facebook. Mas em papel, impressa, parece um bom livro. Design e ilustração de primeira água. Todos os trimestres sai a “Fine”, revista que se dedica à cultura da bebida, do cocktail, às viagens e à “arte” de saber beber. “It's about the Art of Fine Drinking”, dizem eles. E é mesmo. Com moderação, claro.

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