Se calhar os jornalistas e a Comissão acham que os comuns mortais têm obrigação de saber de cor o organigrama do Governo, e desde logo perceber quem “tutela” cada gabinete, sala, quarto ou casa de banho do poder. Mas isso é absurdo. Não me considero mal informado, porém não fazia a mais pálida ideia de quem seria o imprudente ministro responsável por mais este triste episódio da política, que depois escorregou para o jornalismo, embora tenha nascido na esquizofrenia cada vez mais banal das redes sociais (de resto muito bem demonstrada nos minutos que Ricardo Araújo Pereira lhe dedicou na edição da semana passada do “Governo Sombra”).

Pois bem, o ministro chama-se Eduardo Cabrita. Olhando o seu currículo percebe-se claramente a propriedade que lhe assistiu na recomendação que fez: foi secretário de estado adjunto da Justiça, ficou conhecido pela lei do arrendamento do PS e, nos tempos de Guterres, foi alto comissário de Apoio à Reestruturação do Equipamento e da Administração do Território. Ah, é verdade: também foi deputado. Quem poderia estar mais habilitado a palpitar sobre um livro pré-escolar de actividades para crianças? E quem poderia fazê-lo melhor de olhos fechados, “emprenhando pelos ouvidos”, como diz o povo, dado que claramente apenas viu as duas páginas polémicas que criaram todo o caso? Só mesmo Eduardo Cabrita. O território, a justiça e o arrendamento são a base essencial das edições infantis, como bem sabemos.

Eis um caso típico da nossa política: o homem errado que, por estar no Partido certo e apoiar o líder certo, consegue estar também no lugar errado, tomar uma atitude que, no mínimo, num país civilizado, levaria à sua demissão, e chegar ileso ao fim do processo, mal se sabendo o seu nome. Falar em demissão, neste caso, pode parecer exagero, mas não é: a negligência de fazer recomendações sobre livros que não viu (pelos vistos, só mesmo Ricardo Araújo Pereira se deu a esse trabalho), e apelar à censura de obras (admitindo que são “obras” uns cadernos com desenhos e textos básicos para crianças...) que, além de não violarem qualquer direito ou dever constitucional, nem sequer pertencem à esfera de decisão das políticas de educação do Governo no que diz respeito aos livros escolares, constituem motivos mais do que suficientes para remover um membro de um Governo socialista de um país que se diz democrático...

Mas não aconteceu nada. A Porto Editora retirou o livro das bancas, seguramente para evitar chatices e mais berraria, e as redes sociais ficaram a debater o assunto com a elevação do costume (Fernanda Câncio, no Twitter, opinou imenso mas diz que nem viu os livros... É toda uma nova forma de estar na vida).

Está aberta a “via verde” para o esquecimento. É só deixar seguir. Eduardo Cabrita continuará ministro. O marketing das editoras continuará a produzir livros para rapazes e meninas, porque vendem a dobrar (e permitem ao comprador de ultima hora escolher o presente em função do sexo do aniversariante...). O jornalismo não pede desculpa, porque acha que nunca tem culpa. E nós vamos, aos poucos, esquecer mais um triste episódio dos tempos que correm sem parar, nem tempo para abrandar, nem paciência para pensar.

PARA VER...

O momento protagonizado por Ricardo Araújo Pereira no programa “Governo Sombra”, em que o humorista desmonta a polémica dos famosos “Blocos de Actividades”, tornou-se viral. Mas caso o tenha perdido, por aqui chega lá...

Excelente matéria (e vídeo) da revista “Time” sobre o furacão Harvey e sobre um incerto futuro no que diz respeito a fenómenos desta natureza e como lhes responder atempadamente

A imagem que os últimos anos nos deram do “fenómeno” Uber transpirava sucesso, modernidade, confiança e segurança. O tempo encarregou-se de desmentir algumas destas ideias. Com um novo CEO e muitos problemas para resolver, este é um bom resumo (escrito e em vídeo) do que aí vem. E com quem vem.

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