É uma outra frente do choque entre os valores fundadores do ideal europeu e as práticas de governos de países que viveram no bloco comunista liderado pela URSS. Há os muito discutidos casos dos governos autoritários, no campo da direita, na Hungria e na Polónia, com sucessivos desafios ao modelo solidário da União Europeia. Também há os casos de governos com alinhamento no campo social-democrata ou socialista, como acontece na Roménia e em Malta, que estão debaixo de fogo por fortes sinais de corrupção. O problema torna-se crítico quando cabe a um desses países, no caso a Roménia, definir muito da agenda europeia deste semestre, designadamente nas reuniões setoriais de ministros.

Em causa na Roménia está um homem poderoso na política do país: Liviu Dragnea. É o chefe do Partido Social Democrata (PSD) que governa em Bucareste e exerce a função de presidente da câmara baixa do parlamento em Bucareste. Este PSD romeno, partido associado à Internacional Socialista, após a vitória eleitoral nas legislativas de 2016, lançou-se em vasta operação pelo controlo do aparelho judiciário. Na prática, com intenção de controlo político da justiça. A causa não é obviamente assumida, mas está à vista de todos: evitar a prisão de Liviu Dragnea.

Dragnea, impedido de exercer funções de chefe do governo por ter sido condenado por fraude eleitoral (tem barrado o cargo de primeiro-ministro, mas conseguiu fazer-se eleger para a presidência do parlamento), está agora acusado de ter participado no desvio de 21 milhões de euros ligados a fundos comunitários. Os serviços anti-fraude na Comissão Europeia detetaram o caso e enviaram, como é da praxe, o processo para a justiça romena. Interpôs-se o governo que desencadeou uma reforma do sistema judicial que despenaliza certos delitos de corrupção e amnistia outros abusos de poder.

A oposição romena acusa o governo de, com a reforma do código penal, agir para benefício próprio. É o que também pensam os muitos milhares de romenos que nos últimos dois anos têm desfilado em protestos contra a classe política que manda no país. Algumas dessas manifestações têm sido reprimidas com violência.

Um relatório “A Roménia enfrenta o seu passado comunista”, elaborado pelos investigadores Marius Stan e Vladimir Tismaneanu, aponta a corrupção como o grande problema da atual Roménia: “está em todo o lado, na vida quotidiana, sobretudo nos sistemas de saúde, educação, transportes e correios e funciona a custas do cidadão médio e de fundos europeus”.

O governo de Bucareste, submetido a pressões europeias por esses abusos, contra-ataca com campanhas contra a Europa. São campanhas que fazem disparar o populismo eurocético nas faixas mais pobres, designadamente na população rural, enquanto a cidadania urbana sai à rua em manifestações de protesto. Uma dessas recentes manifestações em Bucareste tinha à cabeça uma bandeira azul da União Europeia mas com as estrelas colocadas de modo que inscrevia um pedido de ajuda: “Help!”

A Roménia precisa de ajuda europeia e a Europa, em período crítico, precisa de saber resolver problemas como os colocados pela Roménia. Assuntos como o Brexit são tratados diretamente por dirigentes europeus em Bruxelas (onde funcionam, desde 2009, um presidente permanente, agora o polaco Tusk, e uma chefia diplomática, agora com a italiana Mogherini), mas o quotidiano setorial europeu tem a agenda dos conselhos de ministros fixada pelos titulares romenos.

O que está em causa é o compromisso com os valores europeus de países que quiseram aderir à União Europeia, e dela beneficiar.

A Roménia até começou por parecer um parceiro empenhado. Depois, resvalou.

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