Primeiro, em dezembro passado, o Vox galopou pelas planícies andaluzas, fustigou “o feminismo e a ideologia de género”, “a ditadura dos progressistas”, “os separatistas que querem destruir a pátria espanhola” e, com discurso de machos conquistadores, conseguiu 11% dos votos na maior região de Espanha e puxou para a direita o governo de Sevilha que desde os anos 70 do século XX sempre tinha sido bastião socialista. Depois, em abril, nas eleições gerais, o mesmo discurso deu ao Vox quase três milhões de votos, 10,3% do eleitorado e 24 deputados. O Vox deu rosto aos saudosos da ideologia do franquismo e possibilitou-lhes a saída da existência meio confidencial e passarem a desfraldar na rua sem complexos a bandeira deles.

A novidade das últimas semanas é a deriva de Albert Rivera, líder do Ciudadanos, um partido liberal que apareceu há meia dúzia de anos, na origem com posicionamento no centro político e proposta de funcionar como charneira. Parecia mais próximo da social-democracia do PSOE do que do conservadorismo do PP. Subitamente, nas últimas semanas, Rivera guinou para a direita, a ponto de o Ciudadanos pretender um cordão sanitário em volta do PSOE em vez de querer barrar a extrema-direita.

Albert Rivera tem a pose de um señorito com a grande ambição de vir a governar Espanha. Já pareceu estar mais perto de o conseguir quando pretendeu a imagem de um liberal moderno que se propunha dar alma aos eleitores do PP que definhava. Mas Rivera não conseguiu a prognosticada ultrapassagem do PP e viu irromper o Vox. Em pouco tempo deixou o discurso de “nada com o Vox” e passou a usar o tipo de atitude e discurso de intolerância dos extremistas. 

De facto, Rivera deu passos em falso. Tentou diabolizar o líder socialista, vencedor das eleições (30% dos votos) e candidato a chefe do governo, Pedro Sánchez, que passou a tratar como traidor da pátria espanhola ao negociar a partilha do poder entre PSOE e Podemos, com a cumplicidade de nacionalistas e independentistas. Rivera quis baixar o nível do discurso para o patamar dos gangues ao repetir que “o bando de Sánchez tem um plano secreta contra a Espanha”.  A realidade mostra que Rivera andou a enganar os espanhóis: nem houve acordo PSOE/Podemos para a formação de governo (a tal partilha do poder de que falava Rivera), nem houve secretismos negociais, pelo contrário, PSOE e Podemos passaram as últimas semanas a mostrar em público uma torrente de divergências e intransigências. O esforço do PSOE pareceu mesmo ser – numa opção que parece irrealista da parte de quem precisa de maioria para governar - o de afastar o Podemos.

Quase todos os dirigentes políticos espanhóis estão em fase de pequenez, sem dimensão de Estado. Rivera é o que mais mostrou essa escassez. Chegou ao ponto de descortesia de recusar o convite para reuniões com Sánchez, tendo em vista a discussão da formação de governo, para assim exibir desprezo pelo adversário.

A intolerância está a ganhar espessura em Espanha, nesta fase que os chefes políticos estão a seguir o manual de maus modos na relação política, com desqualificação do adversário. Há quem já veja em Rivera a ambição de ser o Salvini espanhol.

Cada vez pior. Há uma dúzia de anos havia Berlusconi em Itália, fazia de bobo e satisfazia a corte com bacanais e negócios, mas o discurso xenófobo da Liga do Norte (de Umberto Bossi) que então despontava estava confinado a uma região limitada no norte de Itália e era barrado pela rejeição pela maioria da cidadania. Era também o tempo em que a França se mobilizava, com esquerdas e direitas em excecional união, para que a agressividade dos Le Pen contra a sociedade de tolerância ficasse estancada. Por toda a Europa parecia forte o dique contra a extrema-direita e a extrema-esquerda também não entrava no terreno democrático. 

Hoje, a Itália é comandada por um Salvini que criminaliza a solidariedade e que quer exterminar qualquer presença do Terceiro Mundo na Europa, Le Pen lidera o partido mais votado em França e a extrema-direita ganhou poder e influência no governo de vários países europeus, da Itália à Finlândia, passando pela Áustria e pela Bulgária. A Polónia e a Hungria são governados pelo soberanismo extremo, com modelo ultraconservador.

Há quem fale de ameaça de regressos fascistas. Esta parece uma visão inapropriada sobre fenómenos novos e desconhecimento sobre o que o fascismo de facto foi. A qualificação de fascista, nas últimas décadas, perdeu rigor, foi muitas vezes utilizada de modo deturpado – em Portugal, nos tempos mais revolucionários após o 25 de Abril, havia quem tachasse de fascista quem ousasse mostrar-se das direitas.

O que agora vemos é que o motor da política para o bem-estar comum e a boa convivência está a ficar gripado. O que temos nesta época de instantes e de sistemática distorção da verdade na vozearia das redes, é a dissolução de laços entre grupos diferentes, é o reduzir da pluralidade e o ficarmos com o que resta da decomposição de uma era de políticos para quem liderar não era ditar a obediência. O que prolifera são discursos de ódio e temores racistas.

Houve generosas lideranças reconhecidas como a de Mandela, Obama, Gorbachev, Palme, Kohl, Havel e tantas mais. Agora, coincidem Trump, Putin e Xi Jinping, Maduro e Duterte, Bolsonaro e Salvini, Orbán e Erdogan. O papa Francisco é uma rara referência estimulante no tempo que temos agora.

VALE VER:

Estamos no dia da ultrapassagem. A partir de hoje, neste ano, a humanidade vive a crédito da Terra porque está estimado que já consumimos mais do que os recursos naturais gerados pelo planeta. Bolsonaro coloca-se como o vilão ambiental.

Esta semana, ao começo da madrugada de quarta e de quinta-feira, os dois debates entre candidatos à investidura pelo partido Democrata para as eleições presidenciais no ano que vem nos EUA. É um teste a ter em conta sobre as possibilidades de Kamala Harris, frente ao candidato que não parece trazer algo de novo mas lídera as sondagens, Joe Biden.

O venezuelano Carlos Cruz-Diez foi um pioneiro da Op-Art.

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