Veronika votou pela primeira vez em 1994, na eleição de que resultou a eleição de Lukashenko para presidente da Bielorrússia. Só voltou a votar 26 anos depois, foi faz agora um ano. Decidiu não votar nas presidenciais de 2001, 2006, 2010 e 2015 por ter a noção de que eram uma farsa para eternizar no poder aquele que se apresentava como “batka” (pai da nação), mas que, de facto, se revelava cada vez mais como chefe autoritário e déspota.

Em 9 de agosto de 2020, Veronika acreditou que valia voltar a votar. Era a sexta vez que o nome de Lukashenko estava nas urnas eleitorais, mas sentia-se que o regime unipessoal daquele chefe com bigode a imitar o de Estaline estava finalmente esgotado. As sondagens admitiam a possibilidade de eleição de Svetlana Thikanovskaia, símbolo de uma nova Bielorrússia, democrática. Veronika votou em Svetlana.

Veronika nasceu em 1975 em Minsk, então ainda, por mais 15 anos, União Soviética. Celebrou em festa, em agosto de 91, a independência da República da Bielorrússia, na sequência da implosão do império da URSS. Em 94, votou pela primeira vez em eleições livres, era a escolha do presidente e havia esperança no eleito, Lukachenko. Ficou de pé atrás logo no ano seguinte, quando o presidente promoveu a substituição da bandeira vermelha e branca da independência por uma bandeira (com as cores da portuguesa) que recupera a do tempo da ditadura soviética. Era mais um sinal da nostalgia do antigo regime autoritário.

Veronika é hoje professora de História e ativista numa ONG ligada à igreja católica que se dedica ao apoio social. Quando, há um ano, ouviu a proclamação da reeleição de Lukashenko, com 80% dos votos, para sexto mandato presidencial, não teve dúvidas: aquilo a que chamam de eleição tornou-se, no resultado, uma fraude eleitoral com proporções inimagináveis.

Muita da tanta gente que tinha vivido as eleições com esperança. Logo a seguir, as manifestações de rua em contestação ao regime de Lukashenko e de denúncia de falsificação do resultado das eleições foram enormes e sucessivas. Mas as forças policiais foram de pronto ativadas para dura repressão.

Naquela semana a seguir à votação, Svetlana Thikanovskaia, a candidata a quem o regime apenas consentiu 10% dos votos, ao constatar a vaga de prisões, optou pelo auto-exílio na vizinha Lituânia. Svetlana assumiu a liderança da oposição bielorrussa no lugar do marido, que é preso político.

Milhares de pessoas foram presas, muitas torturadas, naqueles dias de agosto do ano passado, por exigirem a saída do presidente que entendiam ter perdido legitimidade.

A dimensão das manifestações e da adesão a greves nesta república ex-soviética com 9,5 milhões de habitantes retratava uma realidade incompatível com apenas 10% dos votos para a candidata da oposição.

Enfurecido pela oposição cidadã, Lukashenko passou a usar métodos de repressão cada vez mais dura. Fez desmantelar ONGs que considerava críticas e perseguiu os media que não o apoiavam. Jornalistas e académicos foram alvo privilegiado da repressão. Está reconhecida a prisão, neste último ano, por ordem política de mais de 35 mil bielorrussos. Muita gente optou por deixar o país.

Ao perceber que estava acossado como nunca em 27 anos de presidência, Lukashenko recorreu ao amparo de Putin. Ao longo da história, a Bielorrússia esteve sempre na zona de influência de Moscovo. A exceção vem de breves períodos de autonomia, o último entre 91 e 94, em que a vida quotidiana se aproximou do modelo de outros países da Europa, Minsk passou a ter hotéis de muito estrelados grandes grupos internacionais, multiplicaram-se as lojas de venda de hambúrgueres e as Zaras. Mas o motor da economia bielorrussa é a Rússia. O Kremlin não deixa que escape à sua órbita um país tão geoestratégicamente encaixado entre a Rússia e países da NATO e da União Europeia, como a Polónia e a Lituânia.

Lukashenko pediu ajuda a Putin e de Moscovo veio a cobertura política, em forma de “assistência e compreensão”, de que o ditador precisava. Ao sentir-se protegido, no delírio para reprimir a dissidência, Lukashenko não teve dúvidas em ordenar, em maio passado, um ato de pirataria aérea de Estado: fez desviar para Minsk um Boeing da Ryanair que voava de Atenas para Vilnius, para assim poder apanhar e prender Roman Protasevich, um jornalista crítico que viajava naquele avião. A Europa então protestou, isolou o espaço aéreo bielorrusso, mas não passou disso.

Agora, na semana passada, dois dramáticos episódios no espaço de 24 horas voltaram a mostrar o que espera quem ousar desafiar as regras impostas pelo regime de Lukashenko.

Primeiro, a atleta olímpica Krystina Tsimanousskaya tornou-se um caso internacional ao ter de recorrer à polícia do aeroporto de Tóquio para se livrar de um repatriamento forçado. Krystina recebeu asilo político em Varsóvia.

Horas depois, o caso Vitalij Shishov, organizador do acolhimento na Ucrânia a refugiados bielorrussos, encontrado enforcado num parque de Kiev. São fortes as suspeitas de homicídio mascarado de suicídio, num ataque aos dissidentes mesmo no exílio. Vitalij tinha sido alertado de que corria risco de rapto ou homicídio em operação planificada pelos serviços secretos bielorrussos. O caso está sob investigação.

Lukashenko é o último dinossauro político que resta na Europa com modos que são os da velha ditadura soviética. Ele sobrevive no poder e pratica uma repressão cada vez mais dura e indigna porque tem o apoio de Putin.

As condenações de rotina por parte da União Europeia e as sanções ao regime de ditadura são muito escassa ajuda aos que lutam e se arriscam pela liberdade na Bielorrúsia. Esta deve ser uma batalha de toda a Europa num tempo em que noutras partes do mundo, na Venezuela, no Egito, nas Filipinas, em Myanmar, também na Turquia como na China e na Rússia cresce o poder autoritário que despreza a liberdade, a democracia e o respeito pela dignidade das pessoas.

Todos estes casos são de lastimar. O de Lukashenko, dentro do continente europeu, merece prioridade que seja exemplar no cerco aos ditadores. Os acontecimentos dos últimos dias já levaram os EUA ao anúncio de sanções sobre empresas estratégicas do sistema estatal bielorrusso. A Europa dispõe-se a decisões do mesmo tipo.

Lukashenko continua a responder a tudo em modo ameaçador. Nesta segunda-feira, num exercício que só tem par em outros ditadores, convocou jornalistas e apoiantes para o que foi apresentado como conferência de imprensa, mas que se transformou em comício com oito horas (não há engano, foram mesmo oito horas de verborreia de Lukashenko) em que quis dar a versão dele da realidade: desqualificou a oposição que reduziu a minoria insignificante e manipulada do exterior e chegou a invocar a ameaça de III Grande Guerra e a argumentar que sem a firmeza dele um conflito mundial poderia eclodir.

Resta saber por quanto tempo mais Lukashenko vai poder continuar a delirar.

Veronika quer continuar a viver nos arredores de Minsk, apesar de saber que cada vez em que atravessa a fronteira da política, nem que seja apenas para participar numa manifestação, está a correr risco.

A ter em conta:

A urgência climática passa ao nível máximo de alerta, o tempo esgota-se. Quando o mundo está a arder, da Califórnia à Grécia, depois de dilúvios de verão na Europa central, sem surpresa, o relatório de peritos do clima da ONU denuncia: este inferno, com multiplicação de acontecimentos extremos, está a acontecer porque o nosso modelo de vida é insustentável. Há ilhas que são países no Pacífico já sob ameaça de desaparecimento.

Em Cabo Delgado, finalmente a ação militar anti-terrorista há muito tão necessária.

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