Quando eu era adolescente, quinze ou dezasseis anos de idade, ir à feira de Carcavelos era um programa altamente aguardado, assim tivesse dinheiro no bolso. Aí, como ainda hoje na feira do relógio e em tantas outras pelo país fora, as vendedoras gritavam, ó menina, olhe o fato de treino, olhe que maravilha. Ao fim deste tempo todo, a ideia de um fato treino deprime-me, tão somente porque estou enfiada em casa em isolamento profilático e opto por vestir a roupa mais confortável que possuo, na maioria das vezes calças de algodão relativamente largas, não o fato de treino clássico, mas, convenhamos, pouco estimulante como peça de roupa. O conforto é absoluto, sim, é, mas já não posso ver roupa confortável. Estou numa fase em que vestiria de bom agrado um fato de saia e casaco, um vestido florido, uma camisa mais vistosa, laços, eu sei lá, qualquer coisa que não seja algodão e, pois sim, confortável.

Estava eu nesta esperteza de pensamento, a considerar as minhas calças de algodão largas, suspirei e continuei corredor fora. De repente, dou com um par de sapatos perdidos à porta de casa. Decidi então fazer vistoria aos meus sapatos, todos os sapatos, literalmente todos, botas (sete pares), ténis (nove pares), sabrinas (três pares), sapatos de salto alto (mais do que seria de esperar e, na sua maioria, intocados ou ligeiramente esfolados porque tenho a tendência para bater um sapato no outro, talvez para me equilibrar ou para tentar ver o mundo de tão alto com olhos de bom ver), sapatos com atacadores (quatro pares), sapatos cuja identificação me escapa (dez pares) e, com isto tudo ao molho, percebi que os meus chinelos têm sido usados até à exaustão e que todos estes pertences têm hoje pouco utilidade. Não comecem já a gozar, a dizer que tenho sapatos a mais, tenho os que tenho, alguns com décadas de existência. Precisarei eu de tanto sapato? Óbvio que não, tudo pode ser mais simples, embora eu tenha uma teoria contrária à de uma senhora, creio que japonesa, que se tornou popular por ajudar a malta a livrar-se do excesso de coisas que se vão acumulando. Eu pergunto-me: estes sapatos fazem-te feliz, apesar de serem muito altos, apesar de serem amarelos (E cito Gil Vicente: ah, filho da puta ruim, sapatos amarelos já não tens, já não falas a ninguém), apesar de te fazerem doer os pés? Fazem-me feliz. Gosto deles, comprei-os, fazem-me feliz porque me convenci, depois de ter largado euros – ou mesmo escudos – que me ficariam bem, portanto não os posso descartar com facilidade.

Nestes dias de maior reflexão sobre o que é a nossa vida, como se faz, como a complicamos ou simplificamos, comecei a encarar os sapatos na perspectiva da utilidade em vez da felicidade (mais ou menos o inverso em relação às calças de algodão, concluo agora mesmo) e enchi sacos para oferecer a quem os quiser. Simples, quero uma vida mais simples e quero conforto? Sim e não. Como em tudo, sou incoerente, sinal de alguma inteligência, espero eu, porque as pessoas mudam de ideias. E assim, nesta pandemia, vivo dividida entre querer sair à rua com uns sapatos Mary Jane maravilhosos, e com um vestido igualmente maravilhoso, e o querer manter os meus velhos chinelos nos pés e optar pelo as fáceis calças de algodão sem história, talvez tendo algum cuidado com a camisa ou camisola, já que agora temos a exigência das vídeo conferências. Da cintura para cima estamos impecáveis, não é?

Leio artigos que exortam as mulheres a maquilharem-se e tal para trabalhar em casa. Eu percebo a ideia, mas, lamento, não me entra de maneira nenhuma. Casa é um refúgio, é uma cápsula protectora, agora transformada em arena profissional. Quando tempo demorarei a ajustar-me? Mais quarenta dias, imagino. Pelo sim, pelo não, vou mantendo os sapatos de salto alto e alguns fatos completos, nem que seja para os admirar.

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