O Líbano tornou-se pioneiro global na, apesar de controversa, fixação de quotas para assegurar a mais ampla representatividade de todos e renovação da classe política. Num país muito fragmentado, com vasto peso e diversidade confessional (18 grupos religiosos com representatividade reconhecida na constituição, xiitas, sunitas, cristãos, druzos, maronitas e outros mais), o parlamento libanês, com 128 lugares, adota à cabeça um mecanismo principal de proporcionalidade: 64 lugares para eleitos muçulmanos e outros 64 para cristãos. Dentro destes dois grandes grupos há subdivisões para as distintas comunidades minoritárias, tanto religiosas como, agora, também as laicas.

A ambição de pluralidade na representatividade levou a grandes discussões sobre quotas nas candidaturas para garantir a presença de mulheres e de jovens com menos de 35 anos. O acordo não chegou a ficar concluído, mas nas eleições deste domingo, entre 600 candidatos, 84 são mulheres (eram apenas 12 nas anteriores eleições, há nove anos) e há grande número de jovens. As quotas religiosas também abriram soluções inclusivas para movimentos laicos.

As eleições de 2018 trouxeram a novidade de muitas candidaturas voltarem costas à tradicional afinidade geopolítica que define um partido como ou pró-iraniano (xiita) ou pró-saudita (sunita). Em vez desse vínculo, o que aparece no topo de agenda de muitos candidatos são questões da qualidade de vida, da criação de emprego (o desemprego oficial está nos 20%, o real passará os 30%), educação, saúde, ambiente e até recolha e tratamento do lixo. A sociedade civil vai ter voz (cerca de dez deputados) no novo parlamento, o que é uma novidade. A batalha contra a corrupção generalizada é o tema forte das candidaturas laicas e corresponde à voz dominante entre o povo libanês

Para que as coisas vão funcionando, embora com permanente fragilidade, no Líbano, valem os múltiplos compromissos muito negociados. Está definido por um “Pacto Nacional” que, seja qual for o resultado das eleições, a presidência da República é ocupada por um cristão, a chefia do governo é de um muçulmano sunita e a presidência do parlamento cabe a um muçulmano xiita.

O Líbano, por entre crises quase permanentes, não tinha eleições há nove anos. Fica a ideia de que esta não ida às urnas foi uma opção para evitar alguma quebra no complexo equilíbrio político entre antigos “senhores da guerra” (a devastadora guerra 1975/1990) e, assim, afastar a ameaça permanente de guerra civil que imediatamente envolve os países vizinhos (Israel, Síria, mais Arábia Saudita e Irão).

Embora ainda não estejam anunciados os resultados finais do voto de domingo, sabe-se que muito do essencial na vida política libanesa vai ficar mais ou menos na mesma, embora com vozes independentes a perturbar a ordem das antigas dinastias e, sobretudo, algum reforço da Hezbollah (pró-iraniana) na liderança de uma aliança – a “8 de Março”-, que pode parecer estranha, ao juntar o movimento considerado radical e pró-iraniano com a direita patriótica do presidente Michel Aoun, e um outro movimento xiita, o Amal, de Nabih Berri, presidente do parlamento.

A frente eleitoral “Futuro”, encabeçada pelo primeiro-ministro Saad Hariri (pró-ocidental, sunita e também com tendência pró-saudita), embora tendo perdido lugares, designadamente na muito populosa periferia de Beirute e em Tripoli, está destinada a continuar a gerir o país com a chefia de um governo de equilíbrios precários.

Há uma figura que tende a assumir relevo no novo parlamento libanês: é Paula Yacoubian, 41 anos, eleita pelo lugar destinado a ortodoxos arménios. Esta aguerrida ex-jornalista foi uma das figuras da campanha, sempre debaixo de fogo nas redes sociais, sobretudo por ser mulher e por denunciar a corrupção. Manteve sempre discurso de combate com grande dignidade.

O resultado destas eleições, ao revelar ligeiro reforço do eixo Irão-Síria, vai desapontar e talvez agitar os estrategos em Israel e na Arábia Saudita. Também na Casa Branca de Trump. Especula-se que a Arábia Saudita, sob a liderança do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman poderá tentar um boicote ao Líbano como o que tentou com o Qatar. Parece, no entanto, fora de risco a ousadia de desencadear uma guerra como a que durante sete anos massacrou a vida no Líbano. Israel também não arriscará abrir uma nova guerra contra a Hezbollah, como a de 2006, em que os israelitas foram obrigados a recuar.

A esperança e a vontade maioritária no Líbano é a de que a extraordinária arte do consenso em Beirute possa levar a um governo estável, capaz de dar energia à muito debilitada economia do país, sabendo evitar a desestabilização pelas muitas tensões internas e externas.

Porém, este maio apresenta-se de alto risco no Médio Oriente: está iminente o anúncio por Trump da retirada dos Estados Unidos com o Irão, a embaixada americana é transferida no próximo fim de semana de Telavive para Jerusalém, a tensão na fronteira entre Gaza e Israel vai subir ao máximo na próxima semana com as manifestações palestinianas no aniversário do que definem como “catástrofe” – a expulsão maciça de palestinianos por Israel.

Há que estar prevenido para os ventos ameaçadores num cenário que tem em fundo as guerras da Síria.

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