No dia 1 de Abril deste ano a Casa de Lisboa da Acreditar fará 16 anos desde que recebeu a sua primeira criança.

Chamava-se José e tinha 14 anos.

Foi a primeira das quase oito centenas de crianças que esta casa, que foi a primeira da Acreditar, recebeu. Sempre com todo o carinho e procurando que pudessem sentir conforto numa casa que não era a sua. Aqui tudo é feito para poder proporcionar a calma, o conforto e também as brincadeiras que apaziguem a dificuldade de uma deslocação prolongada por um tratamento no IPO de Lisboa.

Escrever sobre este aniversário e esta Casa é simbólico porque foi a primeira das actuais três Casas.

Foi a que foi pensada pelos pais que iniciaram a Acreditar e que procurou responder às necessidades que sentiam por não terem um local apropriado para ficarem. Esta serviu de modelo às restantes e continua de portas abertas e a renovar-se para corresponder ao que dela esperam todos os que precisam.

Dia 1 de Abril de 2019 esta Casa vai estar de portas abertas a todos os que a ajudam a manter, aos que a utilizam, aos que nela foram e são voluntários. Enfim, um dia para comemorar a concretização de um sonho que se replicou.

Quem entra nesta Casa sente vida, agitação, brincadeiras, risos, choros e sente o cheiro de comidas que podem parecer exóticas ou tradicionais, mas que são sempre o cheiro de casa…. Da casa de alguém.

Nunca ninguém fica indiferente a este ambiente onde há sofrimento e partilha e muitas crianças voltam para rever a casa, o quarto onde estiveram, as pessoas com quem lidaram. Não voltam com mágoa, mas antes com saudade e muitas verbalizam que foi o melhor que tiveram durante o longo período da doença.

Para quem está do lado de cá da Casa são tantos rostos que às vezes se sobrepõem, tantos nomes e, no entanto, basta relembrar uma história em particular para localizarmos cada rosto, cada nome e cada família que permanece guardada nas nossas memórias.

Muito em breve, esta Casa vai crescer para poder acolher mais crianças, mais jovens e também uma nova população de jovens adultos que revelam necessidades que são muito particulares e que por isso merecem uma atenção diferente com o cuidado de sempre.

Será uma Casa bem maior mas onde tudo será feito para manter o espírito de vivência doméstica com rostos e com identidades. Nas Casas da Acreditar todos têm um nome, uma particularidade, uma identidade que não se esbate na necessidade das vidas temporariamente partilhadas.

Com a nova Casa poderemos receber até 32 crianças e jovens acompanhados, o que fará com que a Acreditar consiga ter, a nível nacional, capacidade para receber até 68 crianças e jovens em simultâneo.

Os médicos valorizam esta proximidade e qualidade, ao ponto de dizerem a muitos dos seus doentes: «Podes ter alta porque vais ficar na Casa da Acreditar». Sabem o que significa para uma criança poder sair, nem que seja um dia mais cedo do hospital? E para um pai ou uma mãe? Poder fazer a comida de que o seu filho gosta, aconchegar-lhe a roupa da cama em ambiente tranquilo e vê-lo brincar com outras crianças com todo o mimo que merecem?

A sociedade também reconhece o efeito tão positivo destas Casas porque tem dado o suporte financeiro que permite manter a gratuitidade do alojamento e de tudo o que o mesmo proporciona.

Os voluntários gostam de estar nas Casas com as crianças, inventando brincadeiras, ajudando os pais e voltando sempre, turno após turno, ano após ano, sem demonstrar qualquer cansaço e qualquer marca das marcas que os marcaram.

Há voluntários na Casa que se mantêm desde que a Casa abriu. Há voluntários mais recentes que apreciam estar neste ambiente sempre tão desafiante para as suas qualidades humanas.

Em 2003 abriu-se uma porta que nunca se fechará enquanto um José precisar de entrar.


A Acreditar, Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro existe desde 1994. Presente em quatro núcleos regionais: Lisboa, Coimbra, Porto e Funchal, dá apoio a todos os ciclos da doença e desdobra-se nos planos emocional e social. Com a experiência de quem passou pelo mesmo, enfrenta com profissionalismo os desafios que o cancro infantil impõe a toda a família. Momentos difíceis tornam-se possíveis de viver quando nos unimos.