Aquele que será talvez o maior acontecimento de sempre na história da stand-up comedy em Portugal terá lugar nos dias 24 e 25 de Maio, no Maxime Comedy Club, em Lisboa. Um dos maiores nomes da comédia mundial, no top 10 de sempre da maioria das pessoas que aprecia stand-up, virá, pela primeira vez, actuar no nosso país. Falo (lol, falo) de Louis C.K., outrora amado por todos, agora amado por alguns e odiado por outros e, ainda, amado em segredo por muitos.

Isto já seria notícia relevante por si só, mas ainda acresce o facto de ter estado envolvido numa polémica há cerca de um ano. Para quem não sabe, o senhor Luís foi apanhado no tornado MeToo e acusado de má conduta sexual e de assediar cinco mulheres que revelaram que ele se masturbava para elas verem. Não vou estar a discutir a legitimidade das acusações, se perguntar a alguém se quer observar-nos em actos onanistas é assédio ou só boa educação. O que me interessa aqui é a seguinte pergunta, que tem sido feita muitas vezes nos últimos tempos: devemos (ou podemos) separar a obra do artista?

A comédia vem muito da empatia. É difícil rirmos de alguém por quem não nutrimos simpatia. Ao contrário de um filme, em que podemos apreciar a realização mesmo que achemos que o realizador é um idiota, e em que a personalidade não prejudica em nada o aspecto estético e técnico da cena, na comédia é diferente. A comédia só existe no receptor: um filme é um filme mesmo que o público não goste; uma pintura é uma pintura mesmo que aos olhos do público seja um rabisco; uma piada só é uma piada se o público assim o achar e se rir dela. E é aqui que a separação entre a obra e o artista pode ser feita: na cabeça do público. Se a perda de empatia por um comediante resultar em não lhe acharmos mais piada, é apenas justo e legítimo que deixemos de apreciar o trabalho dele. Se o público continuar a rir-se, mas outros decidirem banir ou censurar o comediante, acho perigoso. Aposto que quem defende isso continua a ver o Pulp Fiction quando passa na televisão e por essa lógica teríamos de banir todos os filmes que o Harvey Weinstein – acusado de coisas muito piores – ajudou a produzir. Seria estranho. No entanto, também seria estranho ele continuar a produzir filmes novos e continuarmos a vê-los como se nada fosse, confesso. É um tema complexo. Virão pessoas dizer que é indecente Portugal acolher o senhor Luís; e outras di-lo-ão, mas irão ao espectáculo em segredo com um bigode postiço ou fazendo o buço, finalmente.

Quase todas as notícias que deram conta da vinda do senhor Luís a Portugal frisaram apenas que ele havia sido acusado de assédio. Quase nenhuma se referiu ao facto de ele ter 12 solos de stand-up publicados, seis Emmy, entre outras coisitas que marcaram a carreira dele. Ao omitirem tudo o que fez (faz?) dele um dos maiores comediantes de sempre já estão a misturar a obra com o artista. A obra dele não foi tocar solos de oboé em frente a mulheres incautas, mas é isso que fica para a história recente. Para os anais da história, salvo seja, ficará todo o trabalho que ele deixou feito. Talvez apenas o tempo consiga separar a obra do artista, vejamos Fernando Pessoa, que era um alcoólico e que agora é elogiado por todos, ou o Caravaggio, que batia em empregados e chegou a cometer homicídio, mas continua a figurar nas melhores galerias do mundo.

Depois: onde paramos? Na arte, apenas? E as descobertas científicas? Se Hitler tivesse descoberto a cura para o cancro através de testes nos judeus, será que abdicaríamos dela? Por mim, até podia ter testado em crianças que depois viram asas crescer-lhes nas costas e morreram a voar porque, entretanto, estas deixaram de funcionar. As atrocidades estão feitas, se vier algo de bom ao mundo com elas, é a melhor forma de lhes darmos uma chapada de luva branca. Seria o mesmo que demolirmos monumentos antigos porque foram quase todos construídos com auxílio de mão-de-obra escrava e com o dinheiro saqueado aos pobres ou a outros países.

Admito a minha parcialidade, o senhor Luís foi e é uma influência no meu percurso humorístico. No entanto, é preciso também admitirmos que se, em vez de um humorista, fosse um músico de rock, ninguém teria levado a sério as acusações. Uma mulher que vá para o quarto de hotel de um músico de rock já sabe ao que vai, pensariam todos, agora para o quarto de um humorista gordo e careca? Quem é que lhe quer ver a pila? Aliás, será que usar a fama para sacar gajas é uma espécie de assédio porque o consentimento delas está toldado pela admiração que sentem pela celebridade? Se pensarmos bem, uma relação entre celebridade e fã é uma relação de poder emocional. Para mim, capavam-se os artistas todos que eu quero continuar a consumir boa arte e diversa e, por este andar, vão restar apenas artistas femininas já que toda a gente sabe que assédio de mulher para homem não existe, como vimos com as acusações feitas à Mariah Carey.

Depois há a questão: há caminho para a redenção de alguém como o Louis C.K., que fez porcaria? Começará por admitir que fez asneira e pedir desculpa? Já o fez. Mais? Perder dinheiro? Com esta brincadeira perdeu cerca de 30 milhões de euros. É uma coima bastante avultada para algo que nem foi considerado crime nem teve queixa na polícia. Por esse valor ele teria acesso às 1000 prostitutas mais luxuosas do mundo durante uma semana. Acabou por pagar esse valor para se masturbar, sem ajuda, em frente a cinco mulheres que nem eram nada de especial. São taras. Faz dele um predador ou só um palerma que não sabe as regras de etiqueta da corte e do sexo? Não sei, talvez um pouco de ambos. Se todos os exibicionistas que mostram o pénis a mulheres na rua ou enviam dick pics não solicitadas na Internet pagassem 30 milhões de coima, nunca teríamos precisado de chamar a troika.

E o tempo para a redenção? Quanto? Para sempre? Isso é o público quem deve decidir e pela velocidade a que os bilhetes esgotaram acho que a decisão está tomada. Não me parece que toda a gente que o vai ver concorde com o que ele fez, apenas conseguem separar a obra do artista, haverá quem não consiga e também é legítimo. O caminho da redenção é definido pelo público. Reparem: até os políticos que cometem crimes em funções, e que são julgados e presos por isso, têm o caminho da redenção de se poderem voltar a candidatar e, pasme-se, ganham eleições. Shout out para o Isaltino!

Vou ver o Louis C.K. e espero que me faça rir. Espero sair de lá de pazes feitas com ele, mas só porque fiquei desiludido com o último especial dele na Netflix. Vem cá para “testar material”, termo usado em stand-up para nos referirmos a quando estão a ser testadas piadas novas e quando se está a limar o texto para, mais tarde, o apresentar num novo espectáculo a solo em grandes salas. Convenhamos que a expressão “testar material”, no caso do Louis C.K., devia desaparecer do léxico, podendo criar falsas expectativas e levar as pessoas a pensar que o preço do bilhete inclui masturbação ao vivo. Não há nada pior para um humorista do que defraudar as expectativas do público.

Sugestões e dicas de vida completamente imparciais:

Para rir: Deixem o senhor Luís em paz que já tem muito público e vão antes ver o meu espectáculo de stand-up comedy. Não contém masturbação pública. Bilhetes para Braga e Faro neste link e restantes cidades neste link.

Para visitar: Festival de Arte Urbana LX19

Para ver: Especial de comédia de Pedro Teixeira da Mota, no YouTube.

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