Em Portugal, faz frio. Embora muitos rotulem a anterior afirmação de pseudocientífica, Portugal passa, de facto, pelo Inverno. A questão é que o português se deixa sempre surpreender pela chegada desta estação: “Como é que é possível estar este frio?”, insurge-se. A descida das temperaturas costuma ter grande destaque nos noticiários, já que os jornalistas estão avisados da tendência do português se olvidar que, durante parte do ano, não estão 25 graus e céu limpo. Aparentemente, o português ainda não está perfeitamente familiarizado com o calendário romano, pelo que tem dificuldade em associar a inevitabilidade do mau tempo ao mês de Janeiro. Talvez um resquício do colonialismo, talvez uma herança mourisca, o facto é que o português se recusa a admitir que vive bem a Norte do trópico de Câncer.

A hubris dos portugueses contra o frio é verdadeiramente impressionante. É factual que os portugueses não se sabem vestir no Inverno. O português tem pânico de não ficar bem de gorro e teme que se usar luvas lhe chamem de corrupto. Tem relutância em contactar com roupas quentes, provavelmente julgando que estão pejadas de DST's, sofrendo de uma queda libidinosa para andar de mamilos eriçados em público. O enxoval invernal dos portugueses, à semelhança dos nossos intelectuais, tem muitas camadas e cheira a mofo. Metamorfoseamo-nos numa espécie de cebola de algodões que resulta de vestir o máximo de roupa de outono por cima de roupa de primavera, ignorando o facto de nos assemelharmos ao boneco da Michelin. É o chamado processo de agasalho. Agasalhar-se é o conceito de planear mal a chegada das baixas temperaturas, sendo obrigado a vestir o que tiver à mão. É sabido que a maior angústia das mães dos portugueses não é o insucesso profissional, mas a incapacidade de agasalho dos seus filhos.

Os portugueses construíram a ideia de que o mau tempo dura no máximo umas três semanas, pelo que investem bem mais em roupas que fiquem bem no Verão do que em indumentária que se coadune com a pressão atmosférica e estética do Inverno. Portugal vende-se como o winterless country [país sem Inverno]: na propaganda turística, não existe uma única fotografia de Lisboa sob nevoeiro e todos os retratos dos portugueses típicos são de t-shirt, prontos a rasgá-la dado o bafo asfixiante que se faz sentir por aqui durante 365 dias. Aliás, a inexistência de Inverno é o ideal do português, em todo o espetro político: a direita deseja que não exista frio para que se justifique congelar o salário mínimo, já a esquerda recusa-se a importar o modelo social nórdico se este vier com as temperaturas locais.

A nossa luta é a da negação do frio. O português continua convencido de que um único aquecedor Efacec de 1983 trará aconchego à sua casa de 100m2 e, confrontado com a infelicidade de possuir uma lareira, procura arranjar as desculpas mais criativas para não ter o trabalho de a acender. A utilização de ceroulas põe em causa a sua orientação sexual, só achando justo ter acesso aos benefícios do saco de água quente após a reforma. O fenómeno não se limita aos seres humanos: no ramo da zoologia, alguns cientistas têm sérias dúvidas de que os animais portugueses cheguem sequer a hibernar. Ao lado de Cristiano Ronaldo, o clima agradável é o maior orgulho do português. Percebendo menos de meteorologia do que futebol, exulta-o recorrentemente em conversas com estrangeiros. É possível que o português interprete o termo microclima, não como uma área diminuta com condições atmosféricas diferentes da zona exterior, mas como um “clima pequenino”, insignificante, que não interfere no dia a dia. Ao contrário do infernal resto do globo, que sofre de tufões, tornados, neve, rios gelados e monções, cá “está-se sempre bem”.

Muito se tem feito na defesa dos direitos básicos das mulheres, dos homossexuais, das minorias étnicas, todavia em Portugal ainda e sempre se estigmatizam os friorentos – que se escondem do patriotismo atrás de mantas quentinhas. A vaidade do português é nunca sentir frio, não porque dele se protege, mas porque lhe resiste. À homem. Se o frio é psicológico, os portugueses precisam de terapia.

Recomendações:

"Homeland", a série sobre espionagem e terrorismo cujos guionistas vivem com o permanente receio de que a realidade supere a ficção, está de volta. A sexta temporada estreia na quarta-feira em Portugal, às 23h10 na FOX.

Já que estamos no tema, o livro "Jihadismo Global" de Felipe Pathé Duarte é daqueles que nos torna menos grunhos em discussões com amigos.

Por último, autopropaganda. Vou fazer uma tour de stand-up comedy pelo país com mais três palermas. Saiam de casa!

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