Tem um palavrão no título, mas é pouco palavroso. O novo livro de Cristina Ferreira é uma obra que necessariamente estará disponível nas bancas de todos os hipermercados neste Natal. No entanto, se se deslocarem ao Continente em busca de uma obra que vos ocupe no Inverno, é preferível levar para casa o folheto do Mundo Encantado dos Brinquedos, uma vez que terá uma mancha de texto superior à do livro da apresentadora.

A esmagadora maioria do livro é escrito por utilizadores de redes sociais, que, no passado, tinham dirigido comentários deselegantes à autora. Não sei se esses haters estarão listados como coautores, mas a verdade é que "Pra cima de Puta" é fundamentalmente um diálogo com capturas de ecrã de caixas de comentário. Cristina é alvo de vários insultos, que são tão perturbadores ao ponto da malveirense lhes dedicar um livro.

"Quem escreve este tipo de comentário só pode achar que aquilo não vai ser lido, ou que não tem qualquer tipo de efeito" (p. 80)

"A impunidade desta hostilidade é um veneno na sociedade de hoje" (p. 83)

"Quero muito que haja uma legislação que regule esta situação de impunidade em que vivemos. Em que se pode escrever tudo. (...) Este sentimento de impunidade vai ter um resultado infeliz e pouco digno" (p. 96)

"Não posso ter seja quem for a escrever isto na minha página de Instagram ou Facebook: és uma grande vaca. Não posso. Isso e todas as maravilhas que leram aqui ao longo das últimas páginas. Poderíamos encher páginas e páginas com comentários destes." (p. 97)

Não só poderiam encher páginas e páginas, como o fizeram. Porém, apesar de querer impor castigos severos àqueles que lhe dirigem os impropérios dilacerantes que a afectam tanto, Cristina é simultaneamente indiferente às bocas boçais dos internautas.

"A minha mente apaga o que não tem importância" (p. 72)

"Eu não me deixo afetar com os comentários de natureza hostil. Escolho a indiferença e continuo o meu caminho". p. 84

"E este, claro, é um apelo às pessoas sensatas. Com as outras não sei bem se vale a pena perder tempo (...)." (p. 75)

"Quando vejo ataques gratuitos a outras figuras públicas, sobretudo se forem de pessoas das quais gosto, fico muito mais incomodada do que com as coisas que dizem sobre mim." p. 89

"Leio tudo e passa-me ao lado. Tempos houve em que não me era indiferente." p. 108

"Hoje, em mim, tem zero efeito." p. 108

Para além de ser, em simultâneo, uma obra necessária e desnecessária, Pra cima de Putaé um livro de empoderamento da mulher. Cristina sabe que os insultos de que é alvo partem também do machismo entranhado na sociedade, sociedade essa que não suporta ver uma mulher numa posição de poder e com opiniões vincadas. 

“Tenho notado muito, nos últimos anos, que a questão do género é real. E eu não vou deixar que aconteça. Não vou calar. Escrevi e disse que tenho mamas e vagina. Tenho poder. Como muitos homens. Infelizmente, como poucas mulheres. Não peço desculpa por isso.” (p. 36)

Por outro lado, os comentários que a irritam mais são mesmo os das gajas.

"Os homens tendem a ser mais contidos a este nível, mas quando as mulheres fazem comentários de cariz sexual, e insinuam que foi através de favores sexuais que cheguei onde cheguei, confesso que isso me entristece bastante" (p. 34)

"Retomemos a questão dos comentários de cariz sexual. Se forem escritos por homens, não me fazem diferença. (...) Não fico admirada. Sabemos as razões para o comportamento masculino." (p. 44)

"E eu não conheço a vida daquela pessoa. (...) Guardo apenas se é homem ou mulher. Há uma disparidade muito grande. E essa avaliação também merece ser feita. A grande maioria das pessoas que me atacam é composta por mulheres." (p. 106)

Cristina não aceita que falem da sua vida, uma vez que aquilo que Cristina é em público não é aquilo que é em casa. 

"Digo isto várias vezes: a Cristina que é pública está muito longe da Cristina que existe desde sempre. Não é preciso ser muito perspicaz para chegar a essa conclusão. Quando entro em casa, o lado público fica à porta". (p. 65)

Mais à frente, afinal a apresentadora é sempre genuína e não há cá diferenças entre a verdadeira Cristina e o que aparece na TV.

"Nunca construí uma persona" (p. 79)

Pra cima de puta é um livro pessoal, em que Cristina não tem medo de enumerar as suas qualidades.

"Sou inteligente, sou esperta, sou tudo o que possam imaginar que é preciso para chegar onde cheguei, mas manipuladora não sou. Sei que cheguei até aqui porque sempre disse, na cara, o que tinha a dizer. Sou uma pessoa frontal" (p. 69)

Cristina diz coisas na cara. Além das qualidades, também admite os seus defeitos, como o gravíssimo defeito da teimosia.

"Sou muito teimosa. É um defeito, mas também me tem levado a bom porto. Tenho limado outra característica: achar que tenho sempre razão, porque cresci com essa ideia de que a minha opinião estaria mais certa do que a dos outros. Não é assim. Os outros têm opiniões, muitas vezes, mais válidas do que as minhas. Com o tempo, passei a ouvir muito mais as pessoas. Podem pensar que tomo as minhas decisões só por mim, mas a verdade é que as tomo considerando as opiniões que ouvi. Gosto de ser teimosa." (p. 70)

Cristina chega mesmo a ouvir opiniões. Mas que ninguém a acuse de ser gananciosa, que ela responde com o dicionário de rimas.

"Posso dizer que sou ambiciosa, que é uma palavra que rima com gananciosa. Mas a rima não se estende ao sentido, é apenas fonética". (p. 101)

Rimas meramente fonéticas. Quanto ao dinheiro, é coisa que não mexe com Cristina Ferreira.

"Se me conhecessem saberiam que não é, nunca foi, o dinheiro a mover-me. Se gosto de ter uma vida confortável e de dar uma vida confortável à minha família. Claro que sim. Mas sinto que mereço cada cêntimo que me pagam. Gosto de ter dinheiro". (p. 102)

Gosta de ter dinheiro, mas o dinheiro não chega a movê-la. Pensando bem, ganhar mais dinheiro num novo emprego até é capaz de ser uma chatice.

"Muita gente diz: pois, mas tem uma vida muito boa. Tenho. Tenho uma vida extraordinária. Ganho muito dinheiro. Mas colocando nos pratos da balança, o que, a esse nível, perdi com esta escolha que fiz de regressar à TVI e o que ganhei, tenho de concluir que não está tão desequilibrado quanto poderia estar." (p. 94)

Dir-se-ia até que Cristina Ferreira só faz o esforço de ter dinheiro para poder alimentar os sonhos de quem nunca chegará à sua posição.

"Publico algumas fotografias porque acho que, tendo em conta o meu percurso, posso fazer sonhar um bocadinho. Eu vivi muito o sonho dos outros através das revistas, não existiam redes sociais então.  Sonhei muito com uma vida que, na altura, não me era possível ter. Era a vida dos outros e eu gostava de acompanhar. Mesmo sabendo que a maior parte das pessoas não pode chegar onde eu estou, deixo ali um sonho. Todos podem sonhar. O sonho é aquilo que nunca podemos deixar." (p. 93)

Ninguém questiona as razões de Cristina Ferreira para publicar esta obra. Uma delas terá sido o facto de Cristina Ferreira não confiar na internet. Diz-se muito, “uma vez na internet, para sempre na internet”. Mas Cristina não vai nessa. Decidiu imprimir as capturas de ecrã dos comentários das suas redes sociais, pois é improvável que haja outro documento histórico que revele tão bem o espírito do nosso tempo.

"Quero deixar marcada esta realidade, bem vincada, e os livros sabemos que são duradouros. Talvez alguém, daqui a muitos anos, encontre este livro numa feira qualquer, ou num alfarrabista, se ainda os houver, e perceba que, nesta época, era assim que se falava na Internet (...)" p. 108

"Pra cima de Puta", um livro que sabe que ficará para a posterioridade. Confirma-se. Já foi lançado há quase uma semana e continua actual.

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