O Natal, dizem, é a maior festa do ano. O nascimento do filho de Deus, comemorado pelas igrejas – a católica apostólica romana e as demais igrejas cristãs – com grandiosas celebrações, e pelas famílias com jantaradas, presentes e o presépio.

Há até uma espécie de dialéctica entre as famílias; aquelas que montam um presépio na sala, e as que engrinaldam um pinheiro de Natal (hoje em dia de plástico, feito na China). Há também as que juntam o sagrado e o profano, instalando o presépio ao pé do pinheiro iluminado a leds. O diferendo vai até à escolha dos doces; os sonhos e rabanadas para os cristãos, o bolo rei para os pagãos ...

Tudo isto, é claro, admitindo a realidade história que Jesus nasceu a 25 de Dezembro do ano zero da nossa era e que foi visitado por uns “Reis Magos” que lhe trouxeram presentes. Espiritualistas ou consumistas, ou ainda  espiritualistas/consumistas, todos concordam que é uma data permanente e inevitável na cultura ocidental.

A verdade, porém, é bem diferente. Comecemos pela efeméride em si. Jesus Cristo não nasceu a 25 de Dezembro, ou pelo menos não há nenhuma comprovação histórica ou na tradição bíblica sobre esse dia. As investigações laicas mais dignas de crédito usam referências da Bíblia ou astrológicas. As primeiras dizem  que os pastores andavam pelos campos com os rebanhos, portanto na Primavera ou Verão. Quanto às astrológicas, vão buscar a história da estrela que guiou os Reis Magos, e que seria a cometa Halley. Não há concordância quanto a um dia, mas teria sido entre Abril e Outubro, conforme os cálculos.

Então, porquê o 25 de Dezembro? Nos primeiros tempos do cristianismo já aceite em Roma, a Igreja ainda tinha uma certa dificuldade em divulgar a sua verdade entre os não crentes. Uma maneira de se tornar popular era apropriar-se das festas pagãs, isto é, fazer coincidir as datas profanas com as efemérides religiosas. Em Dezembro, a partir do dia 17, celebrava-se o equinócio de Inverno, a Saturnália, com grandes festas. Foi assim que se decidiu que o nascimento de Cristo seria nessa altura. A partir da Idade Média estabeleceu-se definitivamente a Natividade a 25 de Dezembro e a Epifania a 6 de Janeiro.

Mas não é só o dia que foi congeminado por necessidades práticas; o ano também não é certo. Considerando que Jesus nasceu no reinado de Herodes (o que é referido nos Evangelhos de Mateus e Lucas) e que Herodes morreu em 4 A.C., calcula-se que o Salvador terá visto a luz do dia entre quatro e seis anos antes da data oficial. Outros cálculos, comparando a vida e morte de Jesus Cristo com factos históricos referidos nas Escrituras, levam a datas entre 2 e 10 A.C. E convém não esquecer que os factos relatados nos Evangelhos e textos profanos usam o calendário hebraico, diferente do calendário juliano usado pelos romanos. Actualmente utilizamos o calendário gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório , em 1582.

Quanto aos símbolos natalícios para lá do presépio têm origens histórias diferentes. O bolo rei é francês e vem da corte de Luís XVI. Havia variantes, conforme a região, e sempre foi repudiado pelos teólogos como um símbolo pagão. Em meados do século XIX uma dessas receitas foi trazida para Lisboa pelo dono da Confeitaria Nacional, na Praça da Figueira, e teve sucesso imediato. O “nosso” bolo rei, um anel com frutas cristalizadas e nozes, é actualmente uma originalidade exclusivamente portuguesa e não tem nada a ver com os reis dos Evangelhos, sobre os quais, aliás, não há prova histórica.

Quanto ao Pai Natal, seria uma versão folclórica de São Nicolau, um bispo cristão que viveu na Turquia no século IV. Dizia-se que era muito generoso e costumava distribuir presentes pelas crianças, sem qualquer relação com o Natal – a data da sua morte é 6 de Janeiro, a mesma do Dia de Reis. Aos poucos a imagem do santo foi evoluindo das vestes religiosas até se cristalizar no velhinho gordo de grandes barbas, vestido de vermelho com adornos de arminho. Quem universalizou esta imagem? A Coca-Cola, nada mais nada menos, em anúncios do princípio do século XX.

A tradição do Pai Natal terá começado na Alemanha (ainda sem as vestes actuais), de onde também vem a neve e do pinheiro decorado com bolas de cristal da Saxónia e velas. Quando o alemão Alberto, Duque de Sache-Goburgo-Gota, casou com a rainha Vitória de Inglaterra, em 1840, trouxe a tradição da árvore de Natal para a Grã-Bretanha. Da corte para o geral da população foi um ápice – assim como a ideia de dar presentes às crianças no dia 25, incentivada pelos comerciantes. Nessa altura Império Britânico chegava aos cinco continentes. Os ingleses levaram a nova tradição para todo o mundo, inclusive para países onde não mandavam.

E chegamos assim aos nossos dias, em que o Natal se tornou numa festa querida – pois reúne famílias inteiras, que nem se vêem no resto do ano – e uma grande oportunidade comercial. E porque não? Toda a gente gosta; as crianças vivem uma ilusão na altura da vida em que é bom que tenham ilusões, e todo o ciclo produtivo, dos fabricantes disto e daquilo aos comerciantes daquilo e daqueloutro, vende mais do que no resto do ano. Há o subsídio de Natal, os presentes de Natal, as festanças e as bebedeiras de Natal. É preciso ser muito tinhoso ou fundamentalista (politico ou religioso) para ver mal nesta euforia. Tem origens duvidosas ou apócrifas? Pois tem. Mas não há nenhuma criança que esteja interessada nisso.

Vamos mas é passar um Natal feliz, com muitas prendas no sapatinho!

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