Este papa aparece-nos pessoa como todos nós, pessoa de carne e osso, prefere o concreto da vida das pessoas ao abstrato universal. A liderança não vem de um comando rígido ou até autoritário, vem da procura, neste tempo tão convulso, de contribuir para a recomposição da coexistência das diversidades, com humanismo. É um papa que mostra crer na alegria da vida. Tornou-se assim referência global, muito para além dos confins da igreja católica.

Numa época em que se acumulam notícias de escalada de ódios e intolerâncias, carburante para inquietantes identitarismos nacionalistas, com a Europa sob ameaça de desconstrução e com impérios (pelo menos o russo e o americano) em postura agressiva, faz falta quem seja capaz de escutar e pensar antes de falar. E que seja escutado e respeitado. Embora não saibamos até que ponto este papa pode influenciar personagens como Putin ou Trump – e nem se fala de criaturas como Maduro ou Duterte e outros assim que estão a aparecer.

Tivemos nas últimas décadas, sobretudo na Europa, mas também em boa parte do mundo, uma era de paz, democracia e alguma prosperidade sem precedente histórico. Há incerteza sobre se vamos continuar assim.

Também não há memória de um presidente dos EUA com pensamento político tão rudimentar e tão ignorante sobre a história. Só essa desconexão com as exigências da função pode explicar tantas guinadas absurdas na presidência do país que antes de Trump se colocava na cabeça do mundo.

Por mais que se procure, não há relato de tanta instabilidade, até caos, nos dois anos iniciais de um presidente dos Estados Unidos. Trump já substituiu dezenas dos altos cargos que nomeou, e o critério tem sido o de colocar fidelíssimos acríticos no lugar de quem tem reconhecida competência mas ousa discordar do presidente.

Agora é Jim Mattis, um comandante militar com 44 anos de carreira e liderança de missões no Iraque e no Afeganistão a deixar a pasta da Defesa. Quando foi nomeado, a audição parlamentar que é sempre exigência prévia a qualquer posse em posições de topo nos EUA, mostrou que Mattis vê a América como pilar fundamental da ordem internacional estabelecida após a Segunda Grande Guerra – o que implica compromisso absoluto com a ONU e a NATO, tal como com as outras organizações internacionais. Mattis percebeu o desprezo que Trump tem por essa ordem internacional, mas ele sabia ser astuto para travar o presidente. Até ao dia em que deixou de conseguir: foi na semana passada, quando Trump decidiu a retirada militar americana da Síria.

Mattis, militar veterano, que conhece o valor das alianças, sabe que estas devem ser sólidas e assentam na confiança. A presença militar dos EUA na campanha da Síria até é reduzida, mas com alto valor simbólico, designadamente para os curdos, cujas forças, combativas e corajosas, foram decisivas para desalojar os terroristas do ISIS de vastas porções do norte da Síria. Trump trai os aliados curdos, que ficam agora à mercê do poder turco que os persegue com obstinada hostilidade. A brusca retirada dos EUA da Síria entrega agora o país ao comando russo e turco. Putin fica agora senhor do protetorado sírio, deixando provavelmente uma parte para Erdogan – já há primeiros sinais da nova ofensiva turca sobre os curdos.

O isolacionismo de Trump altera bruscamente o equilíbrio de forças no Médio Oriente, com consequências desconhecidas. Fica mais evidente que, para Trump, o contributo dos Estados Unidos para o equilíbrio no mundo deve ser mínimo, o que interessa são os negócios, veja-se como protege o nefasto poder na Arábia Saudita.

Como este também é o tempo do poder de Putin, com a Europa sem liderança convincente, embora não queira dizer algo como “valha-nos Deus”, valha-nos pelo menos a confiança na força da palavra sensata do papa que nos alerta para injustiças, egoísmos, indiferenças e abusos.

A ter em conta:

Faltam 100 dias para o dia-D do Brexit. Vai mesmo acontecer? Ainda pode estar no horizonte um outro referendo?

John Carlin é um jornalista britânico que nunca gostou de José Mourinho. Mas talvez fosse bom para o próprio Mourinho refletir sobre isto que Carlin diz sobre ele.

O melhor Rap de 2018, na escolha da NPR, rádio pública dos EUA.

Imagens de 2018, numa escolha da BBC

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