Quem não anda com as mãos na massa a traduzir todos os dias achará que é fácil traduzir um número. Um número! Que dificuldade pode ter?

Tem algumas. Para começar, temos de mudar aquele ponto para uma vírgula, o que não é difícil.

Depois, temos a palavra «billions». Como se traduz? «Biliões», não é?

Nem por isso…

A palavra inglesa «billion» designa o número 1 000 000 000 — são nove zeros...

Ora, a palavra «bilião», em português, designa o número 1 000 000 000 000. São mais três zeros — e uma quantidade muito maior...

Os seres humanos, na Terra, estão muito longe de atingir o primeiro bilião (à portuguesa). Aliás, é bem provável que nunca lá cheguemos, a não ser que colonizemos mais uns recantos da Galáxia.

Então, como se traduz a expressão «7.8 billions»? «Billion» é, em português, «mil milhões». Será que podemos, então, escrever «7,8 mil milhões»? Poder, podemos: não é ambíguo, está matematicamente correcto. Mas é um pouco estranho. É muito mais natural escrever apenas «7800 milhões»…

Assim, «7.8 billions» traduz-se por «7800 milhões». O nosso planeta tem uns 7800 milhões de pessoas. Os tradutores têm de estar atentos não só às fugidias palavras, mas também aos sólidos números…

Esta confusão existe porque, nas línguas que nos rodeiam, há duas escalas para designar os grandes números. Por um lado, a escala curta, usada nos EUA (e, hoje em dia, também no Reino Unido). Nesta escala, a palavra «billion» designa o número com 9 zeros. Já o número com 12 zeros é chamado «trillion». Depois, temos a escala longa, que a lei estabeleceu em Portugal e é partilhada com muitos países europeus, em que um bilião tem 12 zeros e um trilião é um número tão grande que nem vale a pena falar dele.

A existência de duas escalas distintas em línguas que andam sempre a trocar de textos e em que os especialistas se movem sem grandes fronteiras levou a uma certa confusão. É comum ouvir economistas a falar de «biliões» à americana, enquanto ao lado um historiador usa a designação «milhares de milhões».

A confusão é ainda maior porque, no espaço da mesma língua, há escalas diferentes: os ingleses usaram a nossa escala durante muito tempo, mas, há umas décadas, renderam-se à escala usada nos EUA. Em português do Brasil, a palavra «bilhão» traduz o «billion» americano. Os espanhóis usam o mesmo sistema que nós (e sofrem das mesmas confusões). Já os franceses usam «milliard» para o «billion» americano.

Apesar da confusão, temos alguma sorte: não só os algarismos nos ajudam, como a designação «7800 milhões de pessoas» é muito pouco ambígua. Por isso, usemos os milhares de milhões e deixemos a palavra «bilião» para os raros casos em que temos de falar do milhão de milhões...

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu último livro é o Almanaque da Língua Portuguesa.

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