Há motivos para que este mal-entendido não se varra da minha memória, e afiguram-se muito menos egocêntricos do que possam imaginar. É verdade que começo a falar do Sam The Kid por esta coincidência: os nossos nomes são muito semelhantes, e até partilhamos o ano de nascimento – mas se isto é assunto de gabarolice minha, é só porque não me canso de gabar o Mira. Mais do que vangloriar-me por tais coincidências que nos aproximam, tenho o distanciamento certo para esta gratidão: é bastante bom poder ser contemporâneo do Sam The Kid, habitar o mesmo tempo que as suas criações.

Ele não precisa de reconhecimento. Parece até que o dispensa. Talvez seja exactamente por isso que não contenho a vénia. Mas com o Samuel ambiciono ir mais longe: ambiciono ficar do lado certo da História; talvez no futuro o seu génio se torne tão canónico, tão consensual, que quase se transforma mais num dado adquirido que em talento reconhecido – por isso não contenho estas palavras contemporâneas de reconhecimento. Não basta coroar o rapper de Chelas, há que escutá-lo primeiro, e perceber as honras que lhe devemos.

Não me levem a mal pelo seguinte à parte. Nem levem a mal se meter ao barulho este exemplo camoniano, mas é o que me serve com mais eficácia no momento. De volta à Antena 3, há poucas semanas fui lá para uma entrevista e surpreenderam-me com esta pergunta: “Quais as tuas grandes referências na poesia nacional?”. Sabendo que estaria a dar uma resposta provocadora, entre outros nomes escolhi o Camões. Tenho plena consciência que assumir o Camões como preferência hoje em dia é arriscar algum descrédito; é responder o que se esperaria dum aluno da 4ª classe; é entrar numa geladaria abundante em sabores exóticos e pedir chocolate. O Camões (e até o Pessoa) passou de ser óbvio porque é bom, para ser óbvio porque é óbvio. Destacá-lo revela falta de imaginação, revela desinteresse pela poesia – cuja virtude parece residir em autores menos evidentes. O leitor ficou snob, pôs monóculo “na vista”, já não enxerga poetas zarolhos.

“Luís Vaz de Camões é o maior poeta português de todos os tempos”, e basta assumir esta designação como oficial para que a obra camoniana se torne numa memória morta e estanque. Camões era demasiado clássico (na ambivalência do termo), exacto e regrado para que conste na voga da poesia contemporânea  - que é muito mais selvagem e expressionista, que é estranha, que vive debaixo duma ditadura de originalidade. E é assim que celebramos o Camões sem dele nos querermos lembrar, a não ser por academismos distantes e programas lectivos saudosistas.

Onde é que eu ia? Ah, o Sam The Kid. O Sam The Kid é tão notoriamente o “mais talentoso rapper português de todos os tempos” que temo a oficialidade desta distinção. Será que ele é tão grande que um dia vamos perder a perspectiva da sua grandeza? Será que um dia o chutaremos para o canto dos dados adquiridos? Ao Sam dificilmente chamaremos classicista, como chamamos ao Camões, mas não vou evitar a heresia duma comparação entre ambos. O ponto comum que lhes encontro é o dum rigor extremo, um génio criterioso, a total objectividade mesmo quando o estilo salta aos olhos. Claro que esbarro no ridículo de equiparar o incomparável, e advirto que não tenho em pé de igualdade o esforço duma epopeia literária e o imediatismo dum rap, mas nas devidas proporções tentem entender o meu exercício.

Os Lusíadas não são apenas um poema épico numa rigidíssima estrutura de 10 cantos, 1000 e tal estrofes em oitava-rima, e 8000 e tal versos decassilábicos; seria louvável só esta grandiosa empreitada estrutural, mas depois há todo o extraordinário conteúdo, todas as histórias e as intenções que não ficam diminuídas em nada, nadinha, por tamanha engenharia poética. Com o Sam The Kid a descoberta pode equiparar-se: ouvimos aqueles refrães plenos de aliterações perfeitas e é quase inacreditável como a mensagem não se perde, nem se constrange; o gajo diz o que quer dizer, e soa como quer soar. Se vos parece fácil, estão iludidos. Se vos parece banal, estão loucos.

Artificioso raramente é um elogio, mas neste caso assumo-o assim. Os recursos na ponta da pena do Samuel são estridentes, luminosos e estimulantes - um fogo de artifício. Mas é como se este fogo de artifício não servisse apenas para nos enfeitiçar os olhos no réveillon, e aproveitasse para reparar a camada de Ozono, ou polinizar plantas. Os recursos estilísticos no Sam The Kid não estão lá apenas para enfeitiçar os ouvidos, eles têm um propósito, transportam uma ideia, e raramente correm o risco de parecer martelados ou gratuitos. Nem é preciso conhecer a fundo o panorama do rap nacional (nem, já agora, da restante música cantada em português), para perceber o quão escassa é esta junção de intencionalidade, inteligência e estilo, e o quão preciosa é esta não concessão a facilitismos ou vícios linguísticos.

Notem que na presente abordagem não estou a enveredar pelas facetas de produtor, de samplador, de homem dos botões, tudo valências notáveis do Sam The Kid. A meu ver, nem nessas vertentes ele deixa de ser o mais talentoso inter pares, mas isto alongar-me-ia o texto para lá do aceitável. Também quase não falo do lado performativo, mas há que referir que parte do seu flow impoluto (a cadência certeira a cuspir rimas) tem que ver com a métrica minuciosa com que essas rimas se construíram.  No fundo no fundo, o que interessa é que, depois de vários anos de interregno, o Samuel voltou com uma grande canção, tão rica que nem me deu alternativa: teria de voltar às crónicas que não passam de vénias.

A música “Sendo Assim” anda a rodar na rádio há algumas semanas, o mesmo número de semanas em que vem diminuindo o meu esquecimento do quanto o Mira é talentoso. E nesta canção retrospectiva, explicativa, confessional, há pérolas que nem a velocidade das palavras deixam perder. O refrão é um jardim florido de aliterações. O verso “Fui compulsivo no cursivo e não morri vassalo” é das frases mais excitantes (seja a análise interna ou externa) que ouvi na música portuguesa dos últimos tempos. Este mestre de cerimónias (MC) que envereda pela “life de mil e cem romanos sem remanescentes” merecia um prémio arquitectónico pela notável ocupação de espaços num verso. E transcrevo ainda outra rima de encanto fácil - “Eu vim da arte da rima séria quando o clima era intenso/Uma era linda quando ainda ninguém ria por extenso”.

É curioso como a frase anterior traduz todo o conservadorismo do Sam The Kid. Um chelense convicto, homem que nos habituou a tramadíssimos rabos-de-cavalo, portador de calão invariável no discurso, e ainda assim (ou só assim) um poeta e um conservador. Há pouco disse que ele não era classicista, mas só na conotação greco-latina do termo; é classicista nessa coisa a que chamam “old school”, o que faz todo o sentido, tendo em conta que a velha guarda do hip hop nacional é tão antiga quanto antigo for o Samuel. Mas há que dizer que esse conservadorismo dele é dinâmico. Uma vez confessou-me que não andava a fazer canções porque estava à espera que o calão da rua se renovasse, à espera que os miúdos adoptassem novas palavras para que ele pudesse ter matéria para rimas inauditas. É então quase enternecedor como este conservadorismo se processa: o Sam The Kid é apegado a uma tradição linguística volátil, apegado ao fermento que faz espigar o idioma. Quer que as palavras se reproduzam desenfreadas, para depois submetê-las ao cativeiro zeloso das suas rimas.

No jornal Público de sexta-feira passada, vinha na capa uma fotografia do Samuel ladeada pela pergunta “Quem quer o mundo quando se tem Chelas no coração?”. Parecia uma frase tirada dos Evangelhos. O Samuel, com nome de profeta e juiz bíblico, revelou-se uma apropriada figura de autoridade num segmento da nossa cultura que não podemos ignorar. Bem sei que continua a não ser o dia certo, nem o mês certo, mas parabéns a você, Samuel Mira!

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

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Quem quer o mundo quando se tem Chelas no Coração?

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