Há uma dupla questão imediata: pelo lado independentista, a gestão das reações de indignação que já estão a disparar e que eram esperadas; pelo lado espanholista, a inteligência, ponderação e moderação indispensáveis para baixar a tensão e evitar uma escalada que complique ainda mais as possibilidades de negociação, tão necessária.

A sentença foi anunciada a escassas quatro semanas de eleições gerais repetidas em toda a Espanha. O primeiro ministro em funções, o socialista Pedro Sànchez, apostou na repetição das eleições que tinha ganho folgadamente (PSOE, 28,6%, 123 deputados; PP, 16,69%, 66 deputados; Ciudadanos, 15,86%, 57 deputados; Unidas Podemos, 11,97%, 35 deputados; Vox, 10,26%, 24 deputados) em abril, com a ambição agora de fortalecer a maioria que tem. As sondagens mostram que não há alterações substanciais nas intenções de voto no PSOE, o PP sobe, enquanto Ciudadanos, Unidas Podemos e Vox recuam, queda forte no caso do Ciudadanos.

A questão catalã, agora impulsionada pela sentença, vai ser tema principal, provavelmente em modo extremado, na campanha. Pedro Sánchez, que quis estas eleições, sabendo que a campanha seria atravessada pela sentença no processo catalão, planeou seguramente algum projeto de ponte entre as duas partes, a espanholista e a independentista catalã. Resta saber se será alguma estratégia com robustez bastante para gerar alguma esperança.

Hoje e nos dias mais próximos, há que ter em conta alta probabilidade de incidentes como cortes de estradas ou ocupação de agências bancárias e edifícios do Estado, a par de marchas e concentrações. O desafio para os líderes de um lado e de outro é o de conseguirem manter a via cívica e evitar que os protestos degenerem em violência.

O independentismo tem os seus líderes com maior dimensão política encarcerados. Um deles, o que mostra maior arte estratégica, Oriol Junqueras, é defensor de posições firmas mas que não fechem a possibilidade de pontes para diálogo político. Mas o movimento independentista, que tem o apoio de cerca de metade dos quatro milhões de catalães, está fragmentado e com fundas divisões internas sobre a via a seguir. Fica mais complexo conseguir uma mesa aberta de diálogo.

O cansaço e a desilusão arrefeceu nos últimos meses o empenho de muitos catalães. Esta sentença de agora vai certamente despertar para o protesto muitos catalães que, sendo autonomistas não são independentistas. Há o sentimento de injustiça na construção destas penas, desproporcionadas na condenação de quem se limitou a defender a independência. Não houve golpe de estado, por parte dos independentistas, como o Supremo Tribunal agora confirmou. Não houve violência física por parte dos líderes independentistas – houve excesso de ousadia, que pode ser vista como irresponsabilidade, ao avançarem unilateralmente, sem sustentação contra o estado espanhol.

Democracias consolidadas como a britânica ou a canadiana souberam responder a aspirações independentistas promovendo referendos. A Espanha refugia-se na constituição para rejeitar intransigentemente o referendo.

Depois da indignação na rua catalã nos próximos dias, com greve geral anunciada, com esperança de que o “tsunami democrático” instalado não desencadeie violência, há a esperança de que possam ser dados passos para o diálogo político.

A TER EM CONTA:

A invasão turca da Síria curda está a ser o início de um massacre como é mostrada nesta reportagem da televisão pública France 2. A traição de Trump aos curdos e a invasão decidida por Erdogan consegue a reviravolta que coloca o exército de Assad no lado justo.

A Polónia segue ultranacionalista.

Uma alternativa na Hungria ultranacionalista de Orbán: o candidato da oposição Verde, de centro-esquerda, conseguiu a maioria na votação para presidente da câmara da capital, Budapeste.

A Tunísia é uma esperança democrática na bacia sul do Mediterrâneo: voltou a ter uma eleição presidencial plural, e o eleito é um jurista anti-corrupção, embora muito conservador na opção religiosa.

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