Sob diferentes nomes, Czarado (Ivan, o Terrível, 1547), Império (Pedro, o Grande, 1721), União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (Lenin, 1922) e, finalmente, Federação Russa (Yeltsin, 1991) o maior país do mundo sempre foi uma ditadura fortemente centralizada. Mudaram as ideologias, organizaram-se diferentes estruturas político-administrativas, e contudo, com a excepção de pequenos períodos de ajustamento, a Rússia permaneceu ao longo da História na mão de um homem com poder praticamente ilimitado, mesmo que tenha, a partir de certa altura, uma fachada mais ou menos parlamentar.

Porque é assim, é tema de incontáveis estudos e teorias. Talvez pela enorme extensão, esparsamente populada, talvez pelo clima, maioritariamente agreste, talvez por causa da vodka... Não pode ser uma característica étnica, uma vez que este espaço imenso contém seis etnias principais e uma multitude de outras, algumas mínimas. (Os russos étnicos são cerca de 80% da presente Federação.)

Desde 2020, o homem com poder ilimitado é Vladimir Putin. Claro que a forma da ilimitação tem mudado ao longo da História; Putin, que é tão arguto como implacável, sabe exercê-la segundo o modelo aceite no século XXI. Longe vão os tempos de Nicolau II, em que os manifestantes esfomeados eram imediatamente fuzilados às portas do palácio imperial. Ou os de Estaline, em que nem era preciso manifestarem-se para morrer de fome, aos milhões. Isso são barbaridades de séculos passados. Putin exerce o poder com doses equilibradas de favorecimento aos seus e eliminação individual dos contestatários, tudo dentro duma legalidade aprovada pelo seu Parlamento, e com a bênção da Igreja Ortodoxa, que ele ressuscitou das trevas comunistas e deu estatuto oficial.

Quanto ao favorecimento, é sabido. Os mega milionários saídos das privatizações pós-soviéticas, que até têm um nome próprio na linguagem internacional – oligarcas - financiam e apoiam o presidente, pois os que não o fizeram acabaram presos ou exilados. Daí para baixo, existe toda uma rede de troca de favores na cadeia dos negócios, que vai até o nível municipal, mas que responde atentamente aos sinais vindos de cima.

Há seis partidos na Duma, sendo que o de Putin, Rússia Unida, tem larga maioria. É tudo tão democrático que até o Partido Comunista tem direito a uma pequena representação. Mas a teia de favores, que referimos, tornam os deputados de todos os partidos peças dóceis do esquema.
Quanto aos cidadãos inconvenientes, como a jornalista Anna Politkovskaya, em 2006, são mortos a tiro no meio da rua. Ao todo, 58 jornalistas foram assassinados entre 1992 e 2021. São casos de refractários individuais, porque a comunicação social, como um todo, está completamente amarrada ao poder, sem que sejam necessárias aquelas medidas antiquadas de censura.

Depois, de vez em quando, aparece um rebarbativo que, por várias razões, chama a atenção do país. É o caso de Navalny.

Não é o primeiro, provavelmente terá o mesmo destino cruel dos antecessores, mas não será o último. O que o diferencia dos anteriores? A situação económica deplorável em que vive a maioria da população, que passou da miséria do planeamento ditatorial para a miséria do mercado livre. Putin fala constantemente na Grande Rússia, novamente potência mundial, em movimento em vários teatros de guerra e respeitada pelas outras nações. Mas o cidadão comum não sente nenhuma dessa glória no seu dia-a-dia, e começa a ficar farto. Na verdade, bastaria um líder para os levar a protestar em massa nas ruas, coisa nunca vista há anos.

Navalny, que é um revolucionário igualmente contemporâneo, usa os novos métodos de subversão, como a Internet. Não se sabe como, conseguiu um vídeo de duas horas em que mostra com todos os pormenores do palácio secreto de Putin nas margens do Mar Negro. É uma Versailles moderna, com instalações impensáveis (um teatro e uma pista de patinagem, por exemplo) de um luxo de dourados e cristais que ofuscam tanto pela opulência como pelo mau gosto de novo-rico. Comparando, o Clube Mar-a-Largo de Trump, na Florida, parece uma casa de férias, e a mansão de Edir Macedo, o bispo da Igreja Universal, em Campos do Jordão, uma casa de caseiro.

Navalny relata o documentário, aparecendo às vezes, no meio de imagens de drone sobre a vastidão da propriedade e grandes planos das torneiras de ouro das casas de banho. (Este vídeo, posterior, mostra a argumentação de Navalny, conta a carreira de Putin, e apresenta o famoso palácio a partir do minuto 32.)

Na primeira semana em que esteve disponível na Internet, o vídeo foi visto por quase cem milhões de russos. Isto um ano depois de Putin ter forçado uma mudança constitucional que o coloca no poder até 2036, aprovada num referendo à moda antiga – com repressão, vigilância activa e votos contados pelo aparelho de Estado.

Navalny, advogado de 44 anos, é o líder dum pequeno partido, Rússia Pelo Futuro, com 43 deputados na Duma (o Rússia Unida tem 340) e de uma ONG, a Fundação Anticorrupção. Foi a fundação, que não tem os constrangimentos dos deputados e escapa aos vários controles sobre a livre expressão, que lançou o vídeo.

Putin negou, é claro – o palácio não era dele, nunca lá estivera. Mas Navalny tinha passado a linha vermelha. Em Agosto passado mandou os seus agentes envenená-lo com Novichok. Uma acção tão declarada, uma vez que já é assinatura do FSB (o sucessor do KGB desde 1985) despachar os traidores e denunciantes por esse método pode ser interpretada como um aviso, ou uma tentativa falhada de assassinato. O próprio Putin, com a desfaçatez que a impunidade lhe permite, disse que não foi o FSB que envenenou Navalny, porque se quisesse envenená-lo não teria falhado. Assim mesmo.

Navalny conseguiu autorização para ser tratado na Alemanha (Putin, que deve ter dado um destino fatal aos agentes incompetentes, resolveu mostrar alguma inocência...). Depois de curado, as autoridades russas mandaram-no regressar. Com uma coragem inaudita, Navalny aterrou em Moscovo a 17 de Janeiro, sendo imediatamente preso. Segundo a Justiça, tinha violado uma pena suspensa de 2014, condenado por lavagem de dinheiro. Continua detido, tendo sido recusada fiança. Arrisca-se, no mínimo, a passar muitos anos na prisão. A esposa também foi detida, assim como outros membros do partido e da fundação.

Imediatamente, dezenas, se não centenas de milhares de manifestantes vieram para as ruas em cidades de todo o país. Não se via uma agitação popular assim desde 2013, e jamais na Era Putin. Os números oficiais, que certamente são inferiores aos reais, falam de três mil detidos por desacato. O que é interessante é que a maioria dos recalcitrantes, embora gritassem pela libertação de Navalny, estavam sobretudo a queixar-se das condições em que vivem. Aquele vídeo teve realmente um efeito espetacular.

Que irá acontecer? São raros os registos deste tipo de agitação levar a uma mudança de poder. Aconteceu, famosamente, na queda do Muro de Berlin e no princípio da chamada Primavera Árabe, na Tunísia. Mas não aconteceu na Bielorrússia de Luckachenko, para dar o exemplo mais recente.

Putin tem duas possibilidades: apertar a repressão, o que é mais rápido e seguro, ou melhorar as condições da população, o que é lento e trabalhoso. O sistema está a funcionar tão bem, para quê mexer-lhe?

Não, Navalny não é uma séria ameaça. Mesmo que, como afirmam as autoridades russas, seja um agente provocador ao serviço dos americanos – prova: recebeu uma bolsa de estudo da Yale World Fellows Program – dentro do sistema prisional não tem grandes hipóteses de coordenar uma rebelião.
Quanto a Putin, é melhor habituar-nos à sua presença na cena mundial até 2036.

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